Tenho visto em diversas situações na minha vida profissional, sempre quando existe algo novo, alguma nova instrução normativa ou algo que vai mexer em tudo começam-se os conflitos, principalmente entre importadores e exportadores versus os intervenientes (despachantes aduaneiros, agentes de carga etc.). E nem sempre nesses conflitos existem mediadores, apaziguadores ou mesmo denominadores comuns.
E sim, muitas vezes o “abaixe a cabeça e gaste tubos” dói, mas é uma realidade. E tenho visto isso na prática. Temos a entrada mais do que iminente de processos como o “Catálogo de Produtos” e a Declaração Única de Importação (DUIMP), que chegaram com o pé na porta e trouxeram o desconforto momentâneo. E com tudo isso as LIs viraram LPCOs, os registros em ORQUESTRAS e outros órgãos anuentes algo bem mais complexo.
Essa semana entrei em uma discussão que parecia sem fim com um interveniente que dizia que os SKUs de uma empresa na qual presto serviços deveriam ser certificados por linhas e não mais por família de produtos ou etc. A importação iria ficar totalmente inviável e, por mais que o interveniente não quisesse ouvir as nossas razões, precisamos acionar especialistas, que tem conhecimento de causa, como o meu amigo Sidnei Lostado e o INNAC, para dizerem em outras palavras que não estávamos malucos e que não fazia sentido a requisição do despachante.
Conclusão: Nem lá, nem cá. Vamos fazer o registro dos itens com código genéricos e seguir linha a linha o registro de DUIMP futura, seguida pelo catálogo de produtos e LPCO. E o despachante finalmente concordou conosco. O ponto a ser dito aqui é que a tal expressão: “A regra é clara”, não me parece tão clara assim. E as leis podem ser interpretadas de diversas formas.
O ponto que quero chegar aqui é: o novo assusta, atrapalha e causa no mínimo desconforto. Mas há muitos “especialistas” por aí que afirmam entender de tudo, mas não se preocupam em ouvir seus clientes ou compreender suas realidades. Ser inflexível, frio e sem empatia não trará nenhum benefício em tempos de mudanças.
Além disso, quem agarra suas convicções pode simplesmente afundar com elas. Vamos inverter o jogo. Se esse despachante bater em muro e dizer isso ad eternun vai perder clientes importantes, será mal-visto pelo mercado e tende a ser chamado de ultrapassado. Consequência? Perda de faturamento.
Claro, devemos seguir padrões, regras e lei. Mas, o que nos diferencia de outras áreas é o fato de existirem interpretações que podem tanto nos beneficiar quanto nos prejudicar, de maneiras e formas as mais diversas possíveis.
Conto sempre a história de uma empresa que trabalhei, onde sempre trazia o produto X com um EX-TARIFÁRIO e, quando literalmente deu canal vermelho, a carga foi para vistoria de um perito, os custos aumentaram absurdamente e por insistência de uma regra imposta pelo CEO da empresa, essa quase fechou. Em audiência esse gestor disse a clássica e terrível frase: “Faço assim há cinco ou mais anos”.
No dia seguinte, a RFB mandou auditores a empresa, multas foram aplicadas. Como diz Roberta Folgueral, a “Síndrome de Gabrielona” – sempre fiz assim, sempre agi assim e nunca vou mudar. Pois é, custou o fim de um CNPJ por classificação errada de carga e multas retroativas. E quem falou aquilo para o CEO anos atrás estava no mínimo equivocado (a) mas o “vai que cola” pegou.
O ponto final dessas histórias todas que contei aqui é que sim, existem situações que são novas e vale a pena estudar, antes de fixar uma regra, perder espaço com clientes ou mesmo tomar ações extremas. E isso serve para todos.
E por fim, para refrescar a memória, quando as DEs, REs e DSEs foram transformadas na nossa senhorinha “DU-E” o desconforto para exportadores e seus intervenientes também foi gigantesco. E há quem diga que não ia vingar. E cá estamos emitindo DU-Es aos montes e nem lembramos de como se faz uma DE ou RE. Foi adaptação e o presente justificou o passado.
Por isso, reforço, você que está vivendo a realidade do “novo”, as transformações do comex e o que há por vir não seja tão teimoso(a) e procure entender o contexto. Visto que qualquer resistência perante ao novo pode significar uma ferida pequena ou talvez uma mancha em sua reputação.
Vale a pena comprar a briga? Ou ouvir o outro e entrar em um consenso? Bem, das duas opções que prefiro entender a realidade e achar um denominador comum.
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