A logística nunca foi neutra. Ela é a materialização do poder no território: quem controla rotas, dados, seguros, portos e financiamento controla o ritmo do comércio. Em um cenário geopolítico fragmentado — marcado por rivalidade estratégica, sanções, controles de exportação, disputas tecnológicas e choques energéticos — a logística deixou de ser apenas eficiência operacional e tornou-se variável estratégica. Para quem circula pela Intermodal South America, essa é a conversa central: o que mudou estruturalmente e como isso redefine decisões de CEOs, operadores e embarcadores no Brasil?
1) O risco virou preço — e prazo
Em ambientes estáveis, risco é prêmio de seguro. Em ambientes de fricção, risco é custo sistêmico. Tensões em gargalos marítimos, conflitos regionais e sanções ampliam prêmios de war risk, alteram itinerários e estendem lead times. O efeito é duplo: fretes mais voláteis e previsibilidade menor. A logística contemporânea foi desenhada para confiabilidade; quando o prazo deixa de ser dado, a cadeia inteira precisa reprecificar estoque, capital de giro e contratos.
Para o Brasil — altamente dependente do modal marítimo — isso significa que qualquer perturbação externa chega rapidamente ao caixa das empresas. A volatilidade do bunker, o custo de demurrage e a necessidade de estoques de segurança tornam-se decisões financeiras, não apenas operacionais.
2) Fragmentação regulatória: o atrito invisível
A rivalidade geopolítica multiplicou controles de exportação, regimes de sanções e exigências de rastreabilidade. O resultado é o overcompliance: bancos, seguradoras e operadores preferem travar operações a correr risco reputacional. Pagamentos atrasam, cartas de crédito encarecem, screenings de partes relacionadas se intensificam. O gargalo não está só no porto — está no jurídico e no compliance.
Para visitantes da Intermodal, isso impõe uma pergunta prática: sua cadeia está mapeada por jurisdição? Você sabe quais elos são sensíveis a sanções, a controles de tecnologia dual ou a mudanças de regra de origem? Em 2026, compliance é infraestrutura.
3) Da eficiência à resiliência: a era da redundância
Durante décadas, a lógica foi “menor custo total”. Hoje, a lógica é “menor risco político aceitável”. Nearshoring, friendshoring e diversificação de fornecedores são respostas à incerteza estrutural. Redundância custa — mas o custo de parar custa mais.
Isso revaloriza corredores regionais e integrações produtivas no entorno do Brasil. Mercosul, América do Sul e conexões Atlântico-Sul ganham relevância como alternativas logísticas que reduzem exposição a rotas congestionadas ou politicamente tensas. Ao mesmo tempo, exige investimento doméstico: portos mais eficientes, retroáreas, ferrovias e cabotagem competitiva.
4) Infraestrutura é geopolítica
Portos, terminais, cabos submarinos e sistemas de gestão portuária tornaram-se ativos estratégicos. A disputa por concessões e financiamento carrega considerações de soberania e segurança. A governança dos dados logísticos — quem hospeda, quem acessa, quem integra — passou a ser tema de política pública.
No Brasil, a agenda de modernização portuária e de integração multimodal precisa dialogar com esse contexto. Infraestrutura não é só produtividade; é posicionamento internacional. A decisão de investir (ou não) em determinado corredor pode significar maior autonomia ou maior dependência em um mundo fragmentado.
5) Energia, câmbio e tecnologia: o tripé da nova incerteza
Choques energéticos impactam imediatamente o frete. Volatilidade cambial altera margens e contratos. E a tecnologia — de sistemas de rastreamento a cibersegurança — tornou-se campo de disputa. Um ataque cibernético a um terminal ou restrições a fornecedores tecnológicos podem paralisar fluxos com a mesma intensidade de uma greve.
Empresas que tratam logística como centro de dados — com visibilidade ponta a ponta e planos de contingência acionáveis — estão melhor posicionadas para absorver choques. As demais reagem tardiamente.
6) Oportunidade brasileira: entre risco e protagonismo
A fragmentação cria janelas para o Brasil. A demanda por alimentos, energia e minerais críticos cresce quando cadeias buscam fornecedores politicamente estáveis. Mas capturar essa oportunidade exige confiabilidade logística. Não basta produzir; é preciso entregar com previsibilidade, rastreabilidade e conformidade.
Aqui está o ponto estratégico para a comunidade da Intermodal: a logística brasileira pode ser diferencial competitivo em um mundo fragmentado — ou gargalo estrutural. A diferença está na capacidade de integrar inteligência geopolítica às decisões de rota, contrato, investimento e tecnologia.
Conclusão: logística como inteligência estratégica
A geopolítica não é pano de fundo; é variável de projeto. Mapear chokepoints, diversificar portos e operadores, revisar Incoterms e cláusulas de força maior, fortalecer compliance e investir em visibilidade digital deixaram de ser boas práticas — são requisitos de sobrevivência.
A Intermodal é o fórum ideal para essa virada de mentalidade. Em tempos de fragmentação, quem entende o mapa invisível do poder logístico transforma risco em estratégia. E transforma estratégia em vantagem competitiva para o Brasil.
*João Alfredo Lopes Nyegray é estrategista em geopolítica e comércio internacional. Doutor em Estratégia e Internacionalização, atua como professor, palestrante e analista com presença recorrente na mídia nacional, traduzindo movimentos globais em impactos concretos para empresas, cadeias logísticas e decisões de alta gestão. Coordena o Observatório Internacional da PUCPR e leciona na FAE Business School.
Instagram: @janyegray | LinkedIn: João Alfredo Nyegray
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