Toda semana escrevo sobre o comércio exterior, área pela qual tenho enorme identificação e paixão. Normalmente compartilho situações que acontecem no dia a dia, cases comuns ou mudanças extraordinárias que impactam o setor.
Mas nesta semana fui surpreendido por notícias de grande repercussão: duas empresas conhecidas anunciaram recuperação extrajudicial, o Grupo Pão de Açúcar e a Raízen. Foi um choque para investidores, mercado e público em geral. Mas afinal, por que isso acontece? Existem pontos que precisam ser analisados, e gosto de separar as histórias antes de colocar tudo no mesmo balaio.
No caso da Raízen, uma gigante brasileira voltada ao mercado de combustíveis e outros commodities, o impacto é ainda mais sensível. Combustíveis são essenciais para todos, pessoas, empresas e governo. O mercado é enorme e atende a todos os públicos. Ainda assim, fatores externos pesam: alta nos preços internacionais por conta de conflitos, oscilações cambiais frente ao dólar e ao euro, além da inadimplência que cresce com prazos longos de pagamento. Somam-se a isso questões de gestão, não importa o tamanho do faturamento, se os gastos superam a receita, a conta não fecha.
Já o GPA enfrenta desafios diferentes. A rede é conhecida por preços mais altos em relação a concorrentes, o que leva consumidores a buscar alternativas. Além disso, estoques elevados de produtos perecíveis geram perdas, oscilações de mercado dificultam o repasse de custos e problemas logísticos afetam a operação.
E o que tudo isso tem a ver com o comércio exterior? Muito. A Raízen depende da importação de combustíveis, já que o Brasil não é autossuficiente nesse setor. O GPA, por sua vez, importa vinhos, queijos, frutas como mirtilos e cerejas, entre outros. Quando uma empresa entra em dificuldades financeiras, o crédito se restringe, negociações ficam mais complicadas e fornecedores internacionais podem hesitar.
Um exemplo conhecido é o das Lojas Americanas. Quando a principal entrou em recuperação, todo o grupo foi afetado, tradings, transportadoras e demais empresas vinculadas. O efeito cascata é claro: crédito reduzido, poder de barganha enfraquecido e reputação comprometida, inclusive em negociações internacionais. Reconstruir exige esforço, adaptação e renegociação com todos os envolvidos. Afinal, quando aparece o “asterisco” ao lado do CNPJ, o mercado passa a enxergar a empresa com cautela, e isso vale também para parceiros no exterior.
No fim das contas, a lição é dura: crises empresariais não surgem do nada e o impacto vai muito além das paredes da companhia. E dentro da sua empresa, como está a preparação? A volta é possível, mas é complexa e exige disciplina, ajustes e muito trabalho.