O Brasil avança para ocupar espaço de liderança na produção de combustível sustentável de aviação (SAF) e na construção de uma agenda sólida de transição energética no setor aéreo.
O movimento combina avanços tecnológicos, fortalecimento regulatório e uma articulação inédita entre governo, indústria e academia.
Em entrevista ao Modal Connection, o engenheiro florestal e mestre em Ciências Agrárias Journei Pereira dos Santos, professor do Centro Universitário Alves Faria (Unialfa), analisou o cenário e destacou como o país se posiciona para assumir protagonismo na descarbonização global da aviação.
Continue lendo para entender mais detalhes deste processo!
A maturidade tecnológica do Brasil na produção de SAF
Segundo Journei, o Brasil navega com vantagem na corrida energética mundial. “O país trilha o caminho da vanguarda na produção de SAF e detém amplo potencial para se consolidar como protagonista global”, afirmou o professor.
O histórico nacional em biocombustíveis, do etanol ao biodiesel, cria uma base técnica e normativa que facilita o avanço do combustível sustentável de aviação.
Na frente tecnológica, o país já dispõe de rotas avançadas para síntese de SAF com biomassa.
Journei menciona, entre elas:
- SPK-HEFA: utiliza óleos vegetais, gorduras animais e hidrogênio;
- SPK-ATJ: converte etanol em combustível sustentável de aviação;
- SPK-FT: baseado na transformação química de diferentes matérias-primas;
- SIP: opera por fermentação de açúcares.
Há ainda métodos em fase inicial, como o SPK-HC-HEFA, que emprega bioderivação de hidrocarbonetos.
Para o entrevistado, esse conjunto de rotas sinaliza que o país já dispõe da “espinha dorsal” necessária para ampliar a oferta interna e avançar rumo à escala industrial.
Petrobras assume papel estratégico na rota do combustível sustentável de aviação
A Petrobras é a protagonista natural nesse processo. Journei lembra que se trata de “uma das maiores empresas de combustíveis do mundo, portanto essencial na produção de SAF no país”.
A estatal já opera testes em diferentes refinarias e obteve avanços relevantes em 2024 e 2025. Journei nos explicou que a Refinaria Henrique Lage (Revap), em São José dos Campos (SP), produziu o primeiro lote nacional de SAF.
Além disso, a Refinaria Duque de Caxias (Reduc), no Rio de Janeiro, tornou-se a primeira unidade brasileira certificada pela ISCC CORSIA para produção e comercialização de combustível sustentável de aviação.
Esses passos foram decisivos para atender às metas internacionais de redução de emissões. Conforme o especialista, entre os objetivos da Petrobrás para os próximos anos estão:
- Ampliar o portfólio de produtos de baixo carbono;
- Liderar a produção comercial de SAF no Brasil;
- Consolidar posição estratégica na América Latina.
Ministério de Portos e Aeroportos coordena políticas para acelerar a transição energética
O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) tem assumido papel central na construção do ambiente regulatório e institucional que sustenta a expansão do SAF.
“O ministério vem fomentando o desenvolvimento produtivo, articulando ações com outras pastas e instituições e captando recursos para pesquisa”, disse Journei.
Entre as iniciativas de maior impacto do órgão público estão:
- A criação do Fórum de Transição Energética na Aviação Civil (Fotea);
- Articulação de parcerias público-privadas em aeroportos;
- Coordenação de ações da Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), que estabelece metas como redução de 1% das emissões em 2027 e até 10% em 2037.
O alinhamento entre Governo Federal, indústria e setor aéreo começa a formar uma governança capaz de impulsionar investimentos, certificações e padronização.
Para Journei, esses requisitos são essenciais para consolidar o Brasil como fornecedor de combustível sustentável para o modal aeroviário.
Potencial agrícola e energético abre caminho para exportação
O Brasil reúne condições materiais para se tornar exportador relevante de SAF. “O país conta com cadeias produtivas bem estruturadas, como a da cana-de-açúcar, e volume agrícola suficiente para atender à demanda crescente”, afirmou o engenheiro.
Mas ele alerta para dois desafios estruturais, tais como:
- Logística: gargalos no transporte, armazenamento e distribuição; e
- Sustentabilidade ambiental: necessidade de superar modelos produtivos incompatíveis com a conservação.
Journei resume o dilema: “Seria incoerente avançar na redução de passivos ambientais com SAF e retroceder em cadeias complementares poluentes”.
Para ele, a adoção de agroecossistemas sustentáveis é parte fundamental para que o Brasil consolide uma produção de SAF verdadeiramente verde.
Desafios regulatórios e logísticos: o que ainda falta evoluir
Apesar da promulgação da Lei do Combustível do Futuro, ainda há entraves.
O especialista aponta a necessidade de adotar um regime tributário adequado ao SAF, além de promover o alinhamento das normas nacionais às internacionais, como as diretrizes do CORSIA. Por fim, ele também destaca a importância de realizar a ampliação da infraestrutura de armazenamento, abastecimento e distribuição.
Entre esses, Journei acredita que a logística será um dos pontos mais sensíveis, dada a dimensão territorial do país e a dependência histórica do modal rodoviário.
Expectativas no Mercado internacional
O Brasil já desfruta de reconhecimento global no setor aéreo, em parte pelo peso da Embraer.
Mas, embora o potencial seja enorme, a comunidade internacional mantém prudência. Segundo Journei, existe “uma dicotomia entre alta expectativa e cautela pragmática”, especialmente em relação à capacidade brasileira de investir de forma contínua no desenvolvimento de toda a cadeia.
Parcerias avançam e primeiros aeroportos já abastecem com SAF
A cooperação entre governo e setor privado se intensifica. O entrevistado menciona ações do MME, financiamentos do BNDES e da Finep, e discussões sobre um fundo para reduzir o preço do SAF.
Dentro desse contexto, Journei afirma que um marco simbólico ocorreu em novembro de 2025: o Aeroporto Internacional de Salvador tornou-se o primeiro do país a fornecer SAF para voos comerciais regulares, graças a uma parceria entre o Governo da Bahia e a Vibra Energia.
Competitividade e custos: o caminho para baratear o SAF e impactos ambientais
Hoje, produzir combustível sustentável de aviação custa entre três e cinco vezes mais do que o querosene fóssil. Para Journei, a solução é desenvolver a cadeia com investimentos contínuos e rotas produtivas estáveis.
Ele acredita que a escala industrial, somada a incentivos, tende a aproximar os preços no médio e longo prazo. A expansão do SAF gera custos iniciais altos para companhias aéreas e para o Estado, que precisa investir em infraestrutura.
Porém, no longo prazo, os benefícios incluem geração de empregos, incremento na arrecadação e estímulo a cadeias produtivas sustentáveis.
No campo ambiental, os ganhos podem ser expressivos: redução de gases de efeito estufa, melhoria da qualidade do ar e melhor uso de resíduos, desde que em sintonia com políticas como a PNRS e a Política Nacional sobre Mudança do Clima.
O Brasil na próxima década da descarbonização global
Journei aposta em um cenário otimista para o futuro: “A perspectiva do Brasil ao longo da próxima década é promissora. O país tende a avançar tecnologicamente, expandir energias renováveis e consolidar-se como um dos players globais na produção de energia sustentável”, diz.
Com a Petrobras ampliando sua atuação, o MPor guiando políticas estruturantes e o setor privado formando novas alianças, o Brasil dá passos firmes para ao futuro da aviação sustentável.
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