O painel “Mulheres que movem o transporte ferroviário: Desafios e conquistas”, realizado durante o Congresso NT Expo, reuniu lideranças femininas de destaque no setor ferroviário para uma conversa profunda e inspiradora sobre inclusão, representatividade e transformação cultural.

Com histórias pessoais marcantes e trajetórias profissionais que desafiaram padrões estabelecidos, as participantes compartilharam os desafios enfrentados em ambientes majoritariamente masculinos, as conquistas obtidas ao longo dos anos e as iniciativas que vêm promovendo para abrir caminhos para outras mulheres.

Infraestrutura e representatividade: os primeiros obstáculos

Ane Menezes, diretora de Pessoas da MRS, abriu o painel com um relato sobre os desafios enfrentados ao longo de seus 23 anos de carreira. Ela destacou a falta de infraestrutura adequada para mulheres nas operações ferroviárias: “Na época, as mulheres eram pouco mais de 3% no quadro de funcionários. Não havia banheiro feminino, nem condições de trabalho preparadas para receber mulheres”, relembra.

Além da infraestrutura, Ane enfrentou o desafio da baixa representatividade e da juventude em cargos de liderança. “Assumi uma posição de liderança com 25 anos, liderando 100 homens com mais tempo de casa do que eu tinha de idade.”

A resiliência e o apoio de líderes foram fundamentais para sua trajetória. “O que fez muita diferença foram as pessoas que acreditaram no meu potencial”, comenta.

Resistência silenciosa e a necessidade de se provar

Lilian Rabelo, gerente de máquinas de via e estaleiro de soldas da VLI, compartilhou episódios de resistência velada à sua liderança: “Quando assumi meu primeiro projeto, ouvi de um líder: ‘Mas essa menina vai dar conta?’”

Ela também destacou a resistência silenciosa, quando projetos estratégicos são direcionados preferencialmente a homens. “Além de entregar, a gente precisa se provar. Isso está nos detalhes, nas falas, nas rotinas.”

Apesar dos desafios, Lilian celebra avanços. Hoje, metade da liderança em sua área é composta por mulheres.

Escuta ativa e liberdade de escolha

Leidianny Santos, gerente geral de operações ferroviárias da EFC Vale, reforçou a importância de abrir espaço para escuta e permitir que mulheres façam suas próprias escolhas. “É preciso perguntar às mulheres o que elas querem. Está tudo bem se não quiserem cargos de liderança ou viagens. O importante é poder escolher.”

Ela também alertou para a necessidade de envolver os homens na discussão: “A maioria dos líderes ainda são homens. Se não conversarmos com todos, a equiparação vai demorar.”

Carreira X Vida pessoal

Mayhra Chaves, gerente regulatória da Rumo Logística, trouxe uma perspectiva sobre os desafios logísticos e emocionais de conciliar carreira e maternidade. Ela relembrou que precisou morar em quatro estados diferentes com um filho pequeno. “A parceria do meu marido foi essencial, comenta.

Ela defende que homens também devem apoiar as decisões profissionais das mulheres: “Do mesmo jeito que muitas mulheres seguem seus maridos, os homens também precisam dar a mão para seguir os caminhos das mulheres.”

Daniela Ornelas, vice-presidente de produtos da Wabtec, compartilhou dois momentos marcantes: a mudança para os Estados Unidos com a família e a liderança de uma equipe de engenharia com mais de 60 homens. Ela reforça a importância de conversas difíceis e de criar redes de apoio: “Não somos superpoderosas. Precisamos de apoio, mentores e coragem para tomar decisões”, afirma.

Liderança feminina: inspiração e autenticidade

Mais do que uma troca de experiências, o painel foi um chamado à ação para empresas, líderes e profissionais do setor, reforçando que diversidade é uma pauta estratégica e que o respeito é a base para ambientes mais inovadores, seguros e produtivos. Confira a seguir momentos inspiradores:

  • “Assuma o protagonismo da sua carreira. Tenha repertório técnico e emocional. Seja autêntica. Toda mulher que chega a uma posição de liderança assume a responsabilidade de abrir caminhos para outras” – Ane Menezes
  • “Faço questão de dedicar tempo para orientar outras mulheres. Quero ser a líder que eu nunca tive. Não podemos romantizar [momento delicados como a mternidade]. É um momento difícil, mas temos a sensibilidade para acolher” – Mayhara Chaves
  • “Fui a primeira supervisora de operação, de sala de controle, gerente geral. Estou cansada de ser a primeira. Quero que venham muitas outras. Ter um homem aliado faz toda a diferença. Que ele escute com a alma, sem julgamento. Isso muda a cultura” – Leidianny Santos
  • “Seja forte e corajosa. Seja você mesma. Isso é poder. Educar os homens sobre o que é uma mulher liderando é essencial. A mudança começa em casa e nas empresas.” – Daniela Ornelas

Ao final, ficou evidente que a presença feminina no setor ferroviário não apenas enriquece o ambiente de trabalho, mas também impulsiona resultados concretos em inovação, sustentabilidade e gestão.

As falas das participantes reforçaram que a equidade de gênero não é uma disputa, mas uma construção coletiva que exige escuta ativa, coragem, apoio mútuo e políticas estruturadas.

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