O transporte de animais é um elo essencial da logística agropecuária, especialmente em um país líder na exportação de carne como o Brasil.

Com a publicação da portaria n.º 1.295/2025 pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o setor passa a adotar parâmetros mais rígidos voltados ao bem-estar animal, incorporando exigências quanto à densidade animal, altura mínima dos compartimentos e alimentação em trânsito.

Essas medidas buscam não apenas garantir condições adequadas de manejo e segurança durante o deslocamento, mas também alinhar a pecuária brasileira às normas internacionais de sustentabilidade, rastreabilidade e qualidade do produto final.

Para falar sobre o assunto, conversamos com Josiane Guimarães, tutora do curso técnico em logística do Senac EAD. Confira o que a especialista nos falou abaixo!

Novas regras para o transporte de animais

Josiane Guimarães inicia a entrevista explicando que foi apenas a partir da lei n.º 7.535/2024 que os animais começaram a ser chamados pelos respectivos nomes (mamíferos, répteis, entre outros) e passaram a ter proteção jurídica contra maus-tratos. 

“O transporte de animais, seja para fins domésticos, agropecuários ou internacionais, passou a ser uma operação logística de alta complexidade envolvendo planejamento especializado embasado em conduta ética rigorosa deixando de ser uma simples operação de movimentação de cargas”, elucida.

Ela acrescenta que, recentemente, o Ministério da Agricultura e Pecuária implementou novas diretrizes visando ampliar a segurança e o bem-estar dos animais, bem como alinhar o Brasil às exigências internacionais.

“É estratégico para o Brasil, visto que é um dos maiores exportadores de proteína animal, tendo destaque para a carne bovina, suína e de frango, se adequar aos padrões de sustentabilidade, rastreabilidade e o bem-estar animal”, analisa.

Segundo Josiane Guimarães, há, ainda, diversos estudos que apontam a relação transporte e qualidade final da carne comprovando que o correto manejo com o animal garante uma carne de nível superior, elevando a rentabilidade da cadeia produtiva.

“Estes aspectos conduziram as novas normas detalhando tempo de viagem, veículos adaptados e documentação obrigatória”, observa.

Mais recentemente, o Mapa publicou a portaria n.º 1295/2025 que estabelece regras e procedimentos para a proteção e o bem-estar dos animais de produção durante transporte acompanhado de Guia de Trânsito Animal.

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Os impactos para os produtores pecuários e como se adaptar

De acordo com a especialista, toda nova norma altera e impacta processos. Neste caso específico, afeta diretamente toda a cadeia de transporte animal, ou seja, produtores, granjas, frigoríficos e operadores logísticos.

“O não cumprimento das exigências poderá ser objeto de fiscalização e sanções conforme a legislação sanitária em vigor, especialmente a lei n.º 1.283/1950, o decreto n.º 5.741/2006 e o decreto n.º 9.013/2017 (RIISPOA)”, cita.

Ela também afirma que as exigências quanto a densidade, tempo de viagem e especificações de veículos forçam uma reengenharia sistêmica da logística da fazenda ao frigorífico.

“Há desafios e custos operacionais. Quando pensamos em logística e fretes, uma menor densidade por compartimento para possibilitar a movimentação do animal exige mais viagens, aumentando, portanto, os custos de frete”, exemplifica.

A especialista ainda reforça que no caso do transporte de equídeos, o processo é mais complexo, visto que são necessárias baias individuais. Josiane também lembra dos investimentos necessários na frota, em que são exigidas adaptações com alto custo, ventilação forçada ou, ainda, o cumprimento das paradas obrigatórias com pontos pré-registrados.

“Por último, há o adicional de custo de mão de obra especializada para viagens longas, bem como também a complexidade diante de cálculos rigorosos da densidade de carga no pré-embarque”, comenta.

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Medidas complementares para garantir o bem-estar dos animais e manter a logística de forma eficiente

Na opinião da tutora do Senac EAD, é possível otimizar o pré-embarque aplicando medidas que reduzam o estresse e as perdas.

“Uma prática eficiente é o jejum estratégico onde o controle do período de jejum (água e alimento) permite um esvaziamento parcial do trato digestivo reduzindo peso, produção de dejetos e possíveis problemas digestivos durante o trajeto”, aconselha.

Quanto ao estresse, Guimarães lembra que pode ser aplicado o Low Stress Handling, manejo de baixo estresse, onde as equipes são treinadas a conduzir calmamente os animais sem gritos ou choques elétricos, reduzindo a excitação, minimizando contusões e otimizando o carregamento.

“Ainda é possível trabalhar o uso da tecnologia em trânsito, monitorando e intervindo em tempo real utilizando sensores de microclima, especialmente para suínos e aves”, ressalta.

Conforme Josiane, é estratégico também fazer uso de câmeras com análise de vídeo por meio de IA com o objetivo de detectar automaticamente alterações de movimentos como vocalização excessiva, quedas e amontoamentos que geram comportamentos de estresse.

“Muito interessante também formar parcerias com fazendas ou pontos de apoio certificados ao longo da rota para garantir fornecimento de água potável e alimento fresco durante as paradas obrigatórias”, recorda.

O uso de indicadores fomentados em gestão pós-transporte, que norteiam as operações, também é algo importante na opinião da entrevistada. Sem falar, ainda, da implementação de um sistema de feedback que colete dados do abate sobre perdas de peso e índice de contusões.

Josiane Guimarães também cita o uso de softwares para simular rotas e prever impactos de fatores ambientais.“Assim, é possível reprogramar ou desviar a viagem garantindo melhores condições aos animais”, observa.

E, acima de tudo, é imprescindível, segundo Guimarães, o uso da manutenção preventiva focada nos elementos que compõem o veículo, verificando pisos, rampas e sistemas de ventilação, evitando falhas que possam prender a carga na estrada. 

Novidades que podem surgir para esta área no futuro próximo

Josiane Guimarães lembra que a logística animal é impulsionada e pautada de forma global pela ética e tecnologia.

“Usar sensores de estresse, como os sensores vestíveis ou câmeras com Inteligência Artificial, para monitorar o comportamento do animal em tempo real é uma tendência de valor agregado, evitando falhas”, espera.

Ela também prevê o uso do e-GTA (Guia de Trânsito Animal Digital), a qual se integrará a sistemas de georreferenciamento conferindo tempos de parada e condições climáticas, as quais podem bloquear automaticamente a operação caso não corresponda ao planejamento efetuado.

A entrevistada também espera mudanças no sentido do design veicular, semelhante ao que já existe atualmente na União Europeia. “Outro elemento a ser trabalhado, ainda, é o ângulo máximo das rampas e textura dos pisos com foco em evitar contusões e medo durante o carregamento e descarregamento, regulamentações rigorosas diante das normas de embarque”, prevê.

Por fim, ela espera que a responsabilidade no tráfego de animais seja expandida, diferentemente do que é hoje. 

“A responsabilidade pelo bem-estar animal se estenderá por toda a cadeia onde produtores e frigoríficos que visam a exportação precisarão de certificações independentes que comprovem a conformidade do bem-estar animal em toda a logística, desde a fazenda até a porta do mercado”, conclui.

A modernização das regras para o transporte de animais representa um avanço estratégico para o agronegócio nacional.

Ao equilibrar o bem-estar animal e a eficiência logística na lei, o MAPA fortalece a imagem da pecuária brasileira no mercado global, assegurando competitividade, conformidade regulatória e valorização da carne produzida com responsabilidade e respeito às boas práticas internacionais.