As shortlines, também conhecidas como ferrovias regionais, têm se consolidado como uma solução estratégica para melhorar a eficiência logística no Brasil.
Essas “linhas curtas” funcionam como ramais essenciais que conectam regiões produtivas aos grandes corredores de exportação, permitindo maior fluidez no escoamento das cargas e ampliando a competitividade das cadeias produtivas.
Além disso, o seu papel na integração modal é decisivo, já que criam conexões inteligentes entre ferrovia, rodovia e porto, reduzindo custos e fortalecendo a sustentabilidade das operações.
Para entender melhor como as shortlines ferroviárias podem transformar a logística nacional e quais oportunidades estão em pauta, convidamos você a acompanhar a entrevista com Flávio Franklin, diretor Brasil da Globalsat Group. Leia a seguir!
Shortlines ferroviárias: o que são e como funcionam
As chamadas shortlines são ramais ferroviários, normalmente de curta distância, que conectam clientes locais, como indústrias, plantas de celulose, mineradoras e cooperativas agrícolas, ao corredor principal das grandes malhas ferroviárias.
“Funcionam como um elo entre a ‘última milha’ e o sistema ferroviário principal”, resume Flávio Franklin.
O especialista cita um estudo da Association of American Railroads (AAR) que mostra que nos Estados Unidos essas linhas são responsáveis por originar quase um terço de toda a carga transportada pelas grandes ferrovias nacionais, reforçando a importância da função de coleta e distribuição que exercem.
“Sem dúvida, quando falamos em shortlines, estamos falando em aproximar o produtor, a cadeia logística e o mercado consumidor”, observa.
“É reduzir distâncias, custos e incertezas para que a operação seja mais eficiente e sustentável. Esse modelo já mostrou resultados concretos em outros países e tem grande potencial de desenvolvimento no cenário brasileiro”, completa.
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As ferrovias de curta distância e a logística nacional
As ferrovias regionais, na experiência de Flávio Franklin, oferecem ganhos significativos em 3 frentes: custo, eficiência e sustentabilidade.
“No Brasil, estudos de viabilidade ligados ao projeto Nova Ferroeste, no Paraná, apontam que a integração por ramais pode reduzir o custo logístico da exportação de grãos e outros produtos”, conta.
“Além disso, deslocar cargas que hoje percorrem longas distâncias por caminhão para o trem gera benefícios ambientais relevantes. Cada trem circulando pode representar cerca de 300 caminhões a menos nas estradas do Brasil”, compara.
No cenário nacional, estes ramais ferroviários tendem a aumentar a eficiência logística.
“Quando conseguimos conectar regiões produtivas diretamente à malha principal, não apenas reduzimos custos e prazos, como também ampliamos a competitividade das empresas brasileiras no mercado global”, garante o especialista.

Exemplos de shortlines no Brasil e no exterior e principais resultados
No exterior, Flávio Franklin afirma que os exemplos de shortlines ferroviárias em atuação são robustos.
De acordo com a American Short Line and Regional Railroad Association (ASLRRA), nos Estados Unidos, as shortlines atendem diretamente setores como agronegócio, petróleo e indústria química, movimentando bilhões de dólares em mercadorias a cada ano.
“No Canadá, a Railway Association of Canada calcula que as shortlines movimentam cerca de 20 bilhões de dólares anuais, reforçando seu papel na economia”, apresenta.
Na visão do especialista, esse movimento ainda é incipiente no Brasil, mas já há sinais de evolução para a expansão deste modelo de ferrovias de curta distância.
“O ramal de Serra Azul, em Minas Gerais, que poderá ligar ao ramal principal da ferrovia é um excelente sinal de que o modelo tem grande potencial para avançar em nosso país”.
“Outro exemplo é o projeto Sucuriú, no Mato Grosso do Sul, que pretende conectar uma nova fábrica de celulose a corredores de exportação”, complementa.
Conforme Franklin, para o transporte de celulose poderá ser implantado um ramal ferroviário próprio, que ligará à malha tronco viabilizando o escoamento da produção até o Porto de Santos, otimizando a infraestrutura logística da empresa e da região.
“A flexibilização do modelo de investimentos oriundos do setor privado para a construção de ferrovias é um grande direcionador e incentivador para que as shortlines tenham uma expansão de longa escala e sustentável”, observa.
O setor privado, segundo ele, pode ter grande interesse em investimentos neste modelo com segurança jurídica e garantias de longo prazo. Investimentos sólidos que trazem eficiência operacional, redução de custos e sustentabilidade ambiental e econômica para o modelo de shortlines no país.
“Em ambos os casos, o objetivo é claro: reduzir o custo de escoamento, dar maior previsibilidade às operações e ampliar a competitividade dos produtos brasileiros”, afirma.
Mudanças para otimizar as shortlines e promover a integração em áreas próximas
As experiências internacionais sempre apontam caminhos, muitas vezes ainda desconhecidos. Franklin traz exemplos:
“Nos Estados Unidos, programas federais como o CRISI (Consolidated Rail Infrastructure and Safety Improvements) têm destinado centenas de milhões de dólares a projetos de modernização de shortlines, permitindo a troca de dormentes, melhoria de sinalização e digitalização da operação”, cita o especialista.
Na opinião de Franklin, no Brasil, além das políticas públicas de incentivo, é importante garantir a interoperabilidade técnica entre ramais e linhas troncos, simplificar os processos de autorizações e outorgas e estimular parcerias público-privadas que possam viabilizar esses investimentos.
“Olhando para a realidade brasileira, o desafio vai além do investimento em infraestrutura. É preciso um ambiente regulatório simples, transparente e que estimule parcerias”, analisa.
Ele vê que este cenário vem sendo ampliado, com a condução de diálogos para o bem comum e o crescimento do setor.
“Quando órgãos públicos e iniciativa privada caminham juntos, é possível acelerar projetos, reduzir gargalos e, acima de tudo, garantir que a ferrovia cumpra seu papel de conectar pessoas, regiões e oportunidades”.
Benefícios das ferrovias regionais para profissionais da logística e clientes
Para ilustrar as vantagens das ferrovias regionais, o diretor Brasil da Globalsat Group traz alguns casos:
“Para um produtor de soja em Mato Grosso, um ramal dedicado até a malha principal pode significar dezenas de dólares a menos por tonelada exportada. Para uma empresa de celulose, um ramal integrado garante regularidade no escoamento e reduz a dependência do transporte rodoviário em regiões remotas”.
Além disso, empresas que adotam esse modelo podem associar eficiência logística a metas de sustentabilidade, já que o modal ferroviário é, em média, 4 vezes mais eficiente em consumo energético do que o transporte rodoviário, segundo a própria AAR.
“Esses números ganham ainda mais relevância quando lembramos que, por trás deles, estão produtores, cooperativas e indústrias que dependem da previsibilidade para planejar a sua safra ou manter a fábrica em operação”, analisa.
“Um ramal ferroviário não é apenas uma linha de trilhos, mas um caminho que assegura renda no campo, estabilidade nas cidades e mais sustentabilidade para toda a cadeia produtiva”, finaliza.
Com a ajuda de Flávio Franklin, percebemos que as shortlines ferroviárias representam uma verdadeira alavanca para o desenvolvimento regional e a competitividade nacional rumo a um Brasil mais integrado, eficiente e sustentável.
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