Enquanto aeroportos lidam com filas, conexões apertadas e experiências padronizadas, um outro modelo de viagem ganha espaço no cenário internacional. 

O turismo ferroviário de luxo cresce impulsionado por um público que não busca apenas chegar ao destino, mas viver o percurso. 

Para entender esse movimento e o potencial do segmento, entrevistamos Beatriz Oliveira, fundadora da Pervoy Turismo e especialista em experiências turísticas atípicas.

Entre outras coisas, ela nos explicou que esse movimento acompanha uma mudança mais ampla no comportamento do viajante de alto padrão, que passa a valorizar tempo, qualidade e significado. 

Veja abaixo mais sobre como esse segmento de turismo tem se destacado!

Turismo ferroviário de luxo: um mercado em expansão

O avanço do turismo ferroviário de luxo está diretamente ligado à transformação do consumo no segmento premium. Segundo Beatriz Oliveira, o trem deixa de ser apenas um meio de transporte e passa a ser o próprio destino. 

“O viajante contemporâneo busca experiências imersivas, exclusivas e autênticas. O trem de luxo oferece exatamente isso: gastronomia sofisticada, serviço personalizado, paisagens cinematográficas e roteiros cuidadosamente elaborados”, afirma a especialista.

Essa lógica se conecta ao conceito de slow travel, que valoriza jornadas mais lentas e contemplativas, em contraponto ao turismo acelerado e massificado. 

Conforme a experiência de Beatriz, o público está disposto a pagar mais por conforto, segurança e autenticidade. Ela acredita que isso explica o interesse crescente de grandes grupos e marcas de luxo nesse segmento.

Trens turísticos como proposta de valor

Diferentemente de resorts, cruzeiros ou lodges, os trens turísticos de alto padrão transformam o deslocamento em parte central da experiência. 

A proposta de valor está na continuidade da jornada. Paisagem, narrativa e serviço evoluem ao longo do trajeto, criando uma vivência integrada.

Beatriz destaca que se trata de uma combinação entre exclusividade, ritmo e curadoria. “O trem permite vivenciar o território de forma gradual, com acesso privilegiado a cenários muitas vezes inalcançáveis por outros meios”, explica a turismóloga.

Ela complementa dizendo que: “o ambiente controlado possibilita alto nível de personalização, com cabines privativas, atendimento dedicado e experiências culturais integradas ao roteiro”.

Há ainda um componente simbólico. Trens de luxo carregam herança histórica e estética que dialoga com o imaginário do viajante, criando uma experiência atemporal. 

Essa dimensão emocional ajuda a justificar o ticket elevado e posiciona o produto como algo mais próximo de uma experiência cultural itinerante.

Turismo ferroviário: conforto, gastronomia e roteiros cênicos

A atratividade do turismo ferroviário premium está na integração entre conforto, gastronomia e paisagem. 

Cabines amplas, suítes privativas e serviço atento transformam o tempo de deslocamento em um momento de descanso. 

Em muitos casos, vagões históricos preservam detalhes em bronze, madeira e mármore, reforçando a identidade do produto.

Conforme Beatriz, a gastronomia atua como elemento de memória e conexão cultural. Menus assinados por chefs, uso de ingredientes locais e harmonizações pensadas para cada trecho do roteiro aproximam o passageiro do território percorrido. Alguns trens internacionais contam até com restaurantes estrelados.

Já os roteiros cênicos oferecem o espetáculo contínuo. “Janelas panorâmicas revelam paisagens naturais, áreas históricas e trechos pouco acessíveis por outros meios”, afirma. 

Sendo assim o ritmo do trem favorece a observação de detalhes e mudanças sutis do cenário, criando uma conexão emocional com o percurso.

Perfil do viajante e mercado global e brasileiro

De acordo com Beatriz, o público do turismo ferroviário de luxo é formado, majoritariamente, por viajantes experientes. 

“São pessoas que já conhecem destinos tradicionais e passam a buscar jornadas autorais, bem estruturadas e com significado”, afirma a especialista.

Apesar da predominância de um público sênior, Beatriz afirma que há também o crescimento de um público mais jovem de alto padrão, que valoriza, principalmente, a sustentabilidade. 

No mercado global e brasileiro, exemplos internacionais ajudam a dimensionar esse potencial. 

Beatriz conta que o Orient Express construiu força a partir do storytelling, associando design, história e cultura ao imaginário do luxo. 

Já o Rocky Mountaineer, no Canadá, mostra como a paisagem pode ser protagonista, com vagões panorâmicos e operação diurna focada na contemplação.

Impactos econômicos e desenvolvimento regional

O turismo ferroviário de luxo opera com alto valor agregado e gera impactos econômicos relevantes nas regiões atendidas. 

O gasto médio por visitante é elevado e distribuído ao longo do trajeto, beneficiando hotéis boutique, restaurantes, guias especializados, artesãos e produtores locais.

Outro efeito importante é a descentralização do turismo. Conforme Beatriz, os trens de luxo conectam cidades menores, áreas rurais e regiões com patrimônio pouco explorado.

Isso reduz a concentração em destinos saturados e cria novas oportunidades de desenvolvimento regional.

Infraestrutura ferroviária e desafios no Brasil

Apesar do potencial, ampliar esse tipo de operação no Brasil exige enfrentar desafios estruturais. 

A malha ferroviária limitada, estações degradadas, altos custos de investimento e a necessidade de integração com outros serviços turísticos são entraves recorrentes. 

Soma-se a isso a carência de profissionais capacitados para operar produtos de alto padrão.

Para Beatriz, superar esses obstáculos passa por articulação entre poder público, iniciativa privada e destinos turísticos. 

É preciso criar um ambiente regulatório estável e atrativo para que o trem turístico de luxo deixe de ser exceção e se torne um produto competitivo no mercado global.

Parcerias e perspectivas futuras

Nesse contexto, as parcerias público-privadas são centrais. O poder público atua na concessão de trechos, preservação de estações e definição de marcos regulatórios. A iniciativa privada entra com investimento, operação e posicionamento do produto no mercado.

Para Beatriz, o futuro passa por transformar ativos subutilizados em experiências estruturadas e sustentáveis. 

“O turismo ferroviário de luxo pode valorizar o patrimônio cultural, estimular investimentos em infraestrutura e reposicionar o trem como um ativo estratégico do turismo brasileiro”, conclui a especialista. 

Ao alinhar experiência, memória e sustentabilidade, o Brasil tem a chance de reposicionar o trem não como vestígio do passado, mas como protagonista de uma nova forma de viajar, mais consciente, lenta e conectada ao território.