Quem atua com logística aérea sabe que poucos erros custam tão caro quanto uma carga perigosa retida no aeroporto. Além dos custos diretos, como armazenagem e reemissão de documentos, há impactos difíceis de mensurar: atrasos na cadeia produtiva, desgaste com clientes e exposição jurídica.
O transporte aéreo de cargas perigosas é, por definição, um dos processos logísticos mais rigorosos do mundo. Não se trata apenas de cumprir burocracias, mas de garantir que substâncias, equipamentos ou produtos não coloquem em risco a aeronave, as pessoas envolvidas e a operação aeroportuária.
Veja como funcionam as normas, onde ocorrem os erros mais comuns e quais cuidados práticos fazem a diferença no dia a dia de quem embarca cargas perigosas no modal aéreo.

Entendendo a base de normas do transporte aéreo
Toda operação de transporte aéreo de cargas perigosas é regida por um sistema internacional de normas que se complementam.
Na base está a Organização das Nações Unidas (ONU), responsável pela classificação global dos produtos perigosos por meio do chamado “Livro Laranja”.
Essas diretrizes são adaptadas para a aviação pela ICAO, que publica as Instruções Técnicas.
Já no ambiente comercial, quem dita as regras práticas é a IATA, por meio do Dangerous Goods Regulations (DGR), manual adotado pelas companhias aéreas no mundo todo.
No Brasil, o RBAC 175, da ANAC, transforma essas regras em exigências legais.
Um ponto crítico para os gestores é que o manual IATA é atualizado todos os anos. Operar com base em edições antigas pode resultar em não conformidades, mesmo quando a intenção é correta.
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Como classificar e identificar as cargas perigosas no transporte aéreo?
A classificação correta é o ponto de partida para toda a operação. Sem ela, nenhum outro elemento (embalagem, etiqueta ou documentação) estará correto.
As 9 classes de risco
No transporte aéreo, os produtos perigosos são divididos em nove classes de risco, reconhecidas internacionalmente pela ONU:
| Classe | Tipo de Carga Perigosa |
|---|---|
| Classe 1 | Explosivos |
| Classe 2 | Gases |
| Classe 3 | Líquidos inflamáveis |
| Classe 4 | Sólidos inflamáveis |
| Classe 5 | Substâncias oxidantes e peróxidos orgânicos |
| Classe 6 | Substâncias tóxicas e infecciosas |
| Classe 7 | Material radioativo |
| Classe 8 | Substâncias corrosivas |
| Classe 9 | Artigos perigosos diversos |
Essa divisão não é apenas conceitual. Ela define limites de quantidade, tipos de embalagem permitidos e até se a carga pode ou não ser embarcada em aeronaves de passageiros.
O Número ONU e o Proper Shipping Name (PSN)
Um erro comum entre embarcadores iniciantes é confiar no nome comercial do produto. No transporte aéreo, ele não tem valor operacional. O que realmente importa é o Proper Shipping Name (PSN), associado a um Número ONU específico.
A correta classificação ONU produtos perigosos aéreo exige consulta direta ao manual da IATA, mais especificamente às “Blue Pages”. Um PSN incompleto, abreviado ou divergente da FISPQ é suficiente para impedir o embarque da carga.
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Qual a importância da embalagem homologada no transporte aéreo de cargas perigosas?
A embalagem é uma das principais barreiras de segurança no transporte aéreo de cargas perigosas. Por isso, não é permitido utilizar caixas comuns. Apenas a embalagem homologada UN transporte aéreo atende aos critérios exigidos pelas normas internacionais.
Essas embalagens passam por testes severos de resistência, como queda, pressão interna e empilhamento. O código UN impresso na caixa indica o tipo de material, o nível de desempenho e o grupo de embalagem autorizado.
Outro ponto crítico é o overpack. Quando várias embalagens são consolidadas em um pallet ou caixa maior, as informações originais não podem ser ocultadas. Caso isso aconteça, é obrigatório repetir todas as marcações e etiquetas no volume externo.

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Pontos de atenção na documentação no transporte aéreo de cargas perigosas
Mesmo com a carga corretamente classificada e embalada, falhas documentais continuam sendo a principal causa de retenção nos aeroportos.
Erros comuns no preenchimento da DGD
Erros no preenchimento da Declaração do Expedidor (DGD) estão entre os motivos mais comuns de recusa de cargas perigosas no transporte aéreo. Entre os problemas mais recorrentes estão:
| Tipo de Não Conformidade | Descrição |
|---|---|
| Rasuras ou preenchimento manual | Presença de rasuras, correções manuais ou campos preenchidos à mão, o que invalida o documento para fins legais e de fiscalização. |
| Proper Shipping Name incorreto | Nome apropriado para embarque divergente do informado na FISPQ, caracterizando erro crítico de classificação da carga. |
| Telefone de emergência inválido | Ausência, erro ou indisponibilidade do telefone de emergência 24 horas, obrigatório para atendimento a incidentes. |
Esses detalhes, embora pareçam simples, invalidam o documento e expõem o embarcador a sanções.
O papel do AWB e da FISPQ (MSDS)
No transporte aéreo de cargas perigosas, o Air Waybill (AWB) funciona como o documento que conecta toda a operação. Ele precisa refletir exatamente as informações declaradas na DGD, como o número ONU, o Proper Shipping Name e as restrições aplicáveis.
Qualquer divergência entre esses documentos acende um alerta imediato na etapa de aceitação e pode levar à retenção da carga para verificação.
A FISPQ (ou MSDS) complementa esse processo ao detalhar as características físico-químicas do produto e os riscos envolvidos no manuseio e transporte. Esse documento precisa estar atualizado e totalmente compatível com a classificação adotada.
FISPQs genéricas, fora de validade ou que não contemplam o transporte aéreo costumam gerar questionamentos por parte das companhias aéreas e podem atrasar ou impedir o embarque.
Por isso, garantir que AWB, DGD e FISPQ estejam alinhados é uma etapa essencial para comprovar a conformidade da carga e assegurar a fluidez da operação aérea.
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O desafio das baterias de lítio no transporte aéreo
As baterias de lítio se tornaram um dos principais pontos de atenção no transporte aéreo de cargas perigosas, principalmente por estarem presentes em uma enorme variedade de produtos eletrônicos.
O risco de incêndio, associado à possibilidade de propagação térmica dentro da aeronave, levou autoridades e companhias aéreas a adotarem regras cada vez mais rigorosas para esse tipo de carga.
As restrições de bateria de lítio carga aérea variam de acordo com a forma como a bateria é embarcada. Baterias enviadas sozinhas, classificadas como UN 3480, estão entre as mais restritas e, em muitos casos, são proibidas em aeronaves de passageiros, sendo aceitas apenas em aviões cargueiros e sob condições específicas.

Já para a classificação UN 3481 (baterias acondicionadas com ou contidas em equipamentos), aplicam-se limites rígidos de quantidade, além da obrigatoriedade de embalagens adequadas e etiquetagem específica de risco.
Desconsiderar essas diferenças ou aplicar a classificação incorreta é um erro comum na rotina operacional e costuma resultar em recusa imediata da carga no momento da aceitação.
Além de conhecer as regras gerais, é necessário verificar as exigências da companhia aérea e as variações aplicáveis antes de programar o embarque.
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O checklist do gestor: aceitação e operação em solo
Antes do embarque, a carga passa por uma avaliação visual e documental rigorosa. A integridade da embalagem é um dos primeiros pontos observados. Qualquer sinal de dano, umidade ou violação leva à recusa.
A etiquetagem também é conferida com atenção. Losangos de risco, setas de orientação e, quando aplicável, a marcação “Cargo Aircraft Only” precisam estar corretos e visíveis.
Além disso, o número UN e o PSN impressos na embalagem devem ser idênticos aos documentos. Mesmo pequenas diferenças de grafia geram questionamentos.
É fundamental considerar as variações de Estado e de Operador. Uma carga permitida pela IATA pode ser recusada por uma companhia aérea específica ou por exigências adicionais de determinado país.
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Treinamento CBTA e responsabilidades do embarcador
A IATA adotou oficialmente o modelo CBTA, baseado nas competências reais de cada função. Isso significa que o treinamento deixou de ser genérico e passou a ser focado na atividade exercida.
Outro ponto que merece destaque é a responsabilidade legal. Ao assinar a DGD, o embarcador assume total responsabilidade civil e criminal pelas informações declaradas. O agente de carga atua como conferente, mas não responde pela veracidade técnica da carga.

Logística segura como pilar do transporte de cargas perigosas
O transporte de cargas perigosas exige atenção constante aos detalhes. Classificação correta, uso de embalagem homologada, documentação precisa e equipe treinada formam a base de uma operação segura e previsível.
Mais do que atender às normas, uma gestão eficiente reduz riscos, evita prejuízos e fortalece a credibilidade da empresa no mercado.
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