Diante dos desafios enfrentados pelo setor de infraestrutura, como a necessidade de adequar sistemas às novas tecnologias, investir em mão de obra qualificada, apostar em soluções inovadoras, organizar processos e fomentar a intermodalidade, um elemento se destaca como ponto de convergência: o trabalho híbrido.
Durante a 4ª edição do Interlog Summit, realizada na Intermodal 2026 na última semana, o keynote speaker, Ricardo Cappra, cientista de dados e filósofo da tecnologia, trouxe reflexões importantes sobre o impacto da tecnologia em nossas vidas e como ela molda o mercado de trabalho.
Em seu livro “Híbridos: o futuro do trabalho entre humanos e máquinas”, Cappra apresenta uma visão única e transformadora sobre a inteligência artificial, não apenas como uma ferramenta, mas como uma mentalidade que já molda nossa forma de pensar, agir e decidir. E que influencia os executivos a enxergarem o impacto dessa nova era híbrida na cadeia de supply chain e nos setores de transporte, logística e comércio exterior.
No congresso, Cappra destacou que, atualmente, os seres humanos estão cada vez mais influenciados pelas transformações tecnológicas, o que exige adaptações constantes nas dinâmicas profissionais e na forma como as empresas operam.
Gestão: a necessidade da tomada de decisões
Através de estudos analíticos, ele faz repensar o futuro do trabalho e a relação entre humanos e as máquinas, a partir do que já vivemos hoje e não percebemos ainda.
O especialista explicou aos congressistas presentes que um adulto toma certa de 35 mil decisões por dia. “Estamos sobrecarregados cognitivamente como seres humanos, e a gestões e as lideranças também estão e isso deixa a operação caótica”, destaca.
Para Cappra, o excesso de informações e intervenções pode dificultar e paralisar as escolhas estratégicas nos processos operacionais. “Existe uma cadeia complexa de escolhas envolvendo rotas, estoques, fornecedores, riscos, dados, dashboards e ferramentas tecnológicas. Ou seja, muita tecnologia, muitos dados e menos clareza na hora da ação”, destaca.
Diante dessa realidade ele afirma que estamos vivendo a era da “paralisia decisória”, quando a geração hiperconectada e hiperinformada enfrenta dificuldades em tomar decisões assertivas.
“Estamos perdendo a habilidade de fazer perguntas. O que era exclusivo do humano deixou de ser exclusivo do ser humano. Não estamos mais decidindo sozinhos; toda decisão é afetada por dados e inteligência artificial a todo momento”, explicou.
O consultor chamou atenção para o papel da inteligência artificial como uma espécie de “prótese cognitiva invisível”, que já está inserida no contexto das decisões humanas. Ele exemplificou sua própria experiência, administrando uma equipe composta por 100 colaboradores humanos e 500 agentes artificiais. “As organizações tornaram-se organizações multiagentes, com humanos e máquinas decidindo juntos. Mas quem é o responsável pela gestão? Quem assina esse trabalho?”, questionou.
A saúde mental que está em “jogo”
Esse excesso de influencia de tecnologia pode ser novico a saúde mental humana e gerar diversas consequências. E uma delas é a “paralisia decisória”, citada pelo especialista.
“Na minha concepção é o fenômeno mais grave. É quando a gente começa a tomar a decisão sem perceber que tá sobrecarregado de informação e sobrecarregado de conexão. E isso gera uma pressão, um estresse que pode virar até um burnout”, alerta Cappra.
Ele explica que é essencial parar e entender o quanto estamos sendo afetados, reconhecendo que muitas vezes não temos controle total sobre o processo. E sugere exercitar o processo intelectual antes de recorrer às ferramentas tecnológicas.
“O que acontece hoje é que, ao começar a pensar, as pessoas imediatamente fazem uma busca. Esse não é o processo ideal. O ideal seria pensar antes de utilizar a ferramenta, abstrair algo, buscar conhecimento de forma natural e, só então, recorrer à tecnologia. Isso exercita o processo intelectual, em vez de transferir uma atividade intelectual para a IA”, afirmou.
Treinamentos de como “não usar” a tecnologia
A dica do consultor é que empresas e seus líderes busquem caminhos que incentivem essa abordagem. “Recomendo que as organizações promovam treinamentos focados na gestão da informação e na tomada de decisão, em vez de treinamentos voltados apenas para o uso de ferramentas. É necessário redesenhar arquiteturas de decisão e ensinar as pessoas a gerenciar informações de forma eficiente, ao invés de simplesmente treiná-las para usar tecnologias”, explicou.
O objetivo é que esse movimento ajude a criar uma cultura organizacional mais consciente e equilibrada, onde humanos e IA trabalham juntos de forma complementar, sem que a tecnologia substitua o pensamento crítico e a capacidade de decisão. “As empresas precisam investir em campanhas e treinamentos que incentivem os colaboradores a desenvolverem habilidades cognitivas e a utilizarem a IA como uma aliada, e não como uma dependência”, concluiu.
Novos colaboradores: IA x humanos
A integração entre humanos e inteligência artificial (IA) nas organizações está criando novos desafios, especialmente no que diz respeito à produção de documentos, gestão e tomada de decisões.
Cappra destaca que as arquiteturas organizacionais atuais apresentam um gap significativo: enquanto os agentes humanos passam por processos estruturados que incluem treinamento, imersão na cultura organizacional e adaptação ao ambiente de negócios, os agentes de IA são inseridos diretamente pela área de TI e negócios, sem passar pelo RH ou por etapas que promovam alinhamento cultural.
“A IA não conhece a cultura organizacional, o que pode gerar decisões injustas, enquanto os humanos passam por três camadas de integração e a IA por apenas duas”, afirmou.
Essa disparidade tem implicações diretas na visibilidade das decisões, no nível de autonomia e na responsabilização dentro do ambiente de trabalho. “Precisamos investir em governança, ética e regulamentação para minimizar os impactos dessa integração”, afirma ele.
E completa: “A questão não é usar IA, mas sim como adaptar a gestão para esse novo contexto. As lideranças enfrentam dores relacionadas à cultura e às pessoas, e é preciso reconfigurar a gestão para que isso funcione”, afirmou.
O palestrante também abordou a “síndrome de Frankenstein”, uma metáfora baseada no clássico literário que reflete a evolução da espécie híbrida com foco no aperfeiçoamento humano. Ele comparou essa ideia ao conceito do “centauro”, onde humanos e máquinas trabalham juntos, complementando-se.
“A operação deixou de ser apenas execução; estamos inseridos no sistema na prática. A logística, por exemplo, deixou de ser física e tornou-se híbrida, misturando seres vivos conscientes e sistemas artificiais”, finaliza.
A 30ª edição da Intermodal foi um marco para o setor, reforçando o papel da Intermodal como principal ponto de encontro da logística na América Latina e palco de negócios, conexões e desenvolvimento. A Intermodal 2027 será de 13 a 15 de abril, no Distrito Anhembi, em São Paulo.