A previsão é que, em 2028, seja possível percorrer os cerca de 430 quilômetros entre as duas maiores metrópoles do País em aproximadamente 105 minutos, a bordo de um Trem-bala Rio–São Paulo que alcança até 320 km/h. 

Com passagens estimadas em torno de R$ 500, o projeto é visto como um divisor de águas na história da mobilidade urbana nacional, reposicionando o transporte ferroviário de passageiros como alternativa real aos modais rodoviário e aéreo.

A proposta aponta para uma transformação estrutural na forma como o Brasil se desloca, produz e se integra. Saiba mais a seguir!

Alta velocidade ferroviária e o salto no tempo de viagem

A principal promessa do trem-bala está no tempo. O trajeto Rio–São Paulo, hoje dominado pela ponte aérea e pelas rodovias, pode ser feito em menos de duas horas, considerando embarque no centro urbano, sem os gargalos típicos de aeroportos e estradas congestionadas.

Segundo José Ferreira Gonçalves, engenheiro com pós-doutorado em Sustentabilidade e Transportes e presidente da ONG FerroFrente, o projeto tem potencial para reposicionar o transporte ferroviário no país. 

Para ele, o Trem de Alta Velocidade (TAV) demonstra que “o transporte ferroviário de passageiros tende a se consolidar como uma alternativa mais econômica, sustentável e eficiente”, alinhada ao que já ocorre em países desenvolvidos.

Na avaliação do especialista, insistir quase exclusivamente nos modais rodoviário e aéreo significa perpetuar custos elevados, ineficiências operacionais e impactos ambientais cada vez menos compatíveis com os desafios atuais.

Integração econômica, urbana e cultural

A redução do tempo de deslocamento não afeta apenas a agenda de executivos ou turistas. O impacto tende a ser mais profundo, especialmente no Vale do Paraíba, região estratégica entre Rio e São Paulo.

Gonçalves destaca que o TAV pode atuar como indutor de desenvolvimento econômico e social, oferecendo um transporte rápido, confiável e competitivo. De forma indireta, o sistema consegue estimular a revitalização do entorno das estações e favorecer a desconcentração urbana.

O especialista ainda acredita que a possibilidade de morar em cidades menores, com melhor qualidade de vida, sem perder a conexão diária com os grandes centros, pode alterar padrões de trabalho, moradia e planejamento urbano. Isso trará reflexos diretos no mercado imobiliário e na organização das metrópoles.

Ponte aérea vs. trem-bala: competitividade em jogo

A comparação entre avião e trem é inevitável. Além disso, é evidente que em corredores internacionais, nos quais a alta velocidade ferroviária foi implantada, o transporte aéreo perdeu espaço ou deixou de operar.

De acordo com Gonçalves, fatores como segurança operacional, confiabilidade dos horários, menor vulnerabilidade às condições climáticas e custos potencialmente inferiores ajudam a explicar essa competitividade. Soma-se a isso a experiência do usuário, que tende a ser mais fluida em viagens ferroviárias de média distância.

A leitura internacional mostra que ignorar esse histórico significa abrir mão de soluções já testadas e insistir em modelos mais caros e menos eficientes.

Mobilidade sustentável e redução de emissões

A mobilidade sustentável é outro pilar do projeto. Isso porque a migração de passageiros do transporte aéreo e rodoviário para o trem-bala pode gerar ganhos ambientais relevantes.

Entre os principais benefícios estão a redução de emissões de CO₂, a diminuição do ruído urbano e a mitigação de riscos associados a acidentes rodoviários. 

Segundo Gonçalves, em um cenário de emergência climática, esses fatores deixam de ser complementares e passam a ocupar lugar central na formulação de políticas públicas de infraestrutura.

Financiamento, concessões e parcerias público-privadas

Os projetos dessa escala exigem engenharia financeira sofisticada. Um dos maiores desafios, segundo o presidente da FerroFrente, é estruturar o TAV sem depender diretamente de recursos públicos.

Ele conta que a Lei das Ferrovias abriu espaço para novos modelos ao permitir outorgas via regime de autorização, com prazos longos, maior flexibilidade operacional e possibilidades de exploração imobiliária no entorno das estações. 

O desafio, portanto, não está na falta de instrumentos legais, mas na capacidade de estruturar projetos tecnicamente sólidos e com segurança jurídica.

Nesse contexto, modelos de concessão e parcerias público-privadas podem viabilizar a alocação estratégica de recursos públicos, tornando o projeto mais atrativo à iniciativa privada, especialmente em regiões em que a demanda ainda está em formação.

Tecnologia ferroviária já testada no mundo

Do ponto de vista técnico, o Brasil não parte do zero. Sistemas de material rodante, sinalização, energização e comunicação necessários à tecnologia ferroviária de alta velocidade já são amplamente utilizados no exterior.

Para Gonçalves, isso indica que o principal obstáculo não é tecnológico, mas institucional e regulatório. 

Ele explica que Japão, França e China já demonstraram que, com planejamento consistente e continuidade de políticas públicas, os sistemas de alta velocidade se tornam altamente competitivos e atrativos para usuários e investidores.

Competitividade logística e integração nacional

Embora o foco inicial seja o eixo Rio–São Paulo, o projeto carrega um simbolismo maior. 

O TAV pode representar o primeiro passo para a construção de uma rede ferroviária moderna, conectando polos econômicos, reduzindo custos logísticos e fortalecendo a integração nacional.

Na visão de Gonçalves, trata-se de uma mudança de paradigma. O trem-bala deve se consolidar como símbolo de modernização da infraestrutura brasileira, visão de longo prazo e compromisso com um modelo de desenvolvimento mais equilibrado e sustentável.

Em suma, o projeto tem potencial para reposicionar o Brasil no mapa da mobilidade do século XXI.