Os impactos dos piratas modernos na segurança de cargas em alto-mar vão muito além das histórias de ficção que vemos no cinema. Embora a imagem clássica do pirata com perna de pau e papagaio no ombro habite o imaginário popular, a realidade do comércio exterior enfrenta organizações criminosas altamente tecnológicas.
Esses grupos não buscam apenas tesouros, mas mercadorias de alto valor, combustíveis e, muitas vezes, o próprio navio para exigir resgates milionários.
Para quem deseja entender a gravidade dessa ameaça, a especialista Angela Cristina Kochinski Tripoli, doutora em Administração, deixa uma recomendação cultural que ilustra bem o cenário: “Assista ao filme Capitão Phillips. Ele conta a história do navio Maersk Alabama que foi sequestrado em 2009. Dá para ter uma boa ideia do que são esses piratas”, explica.
Contudo, para o gestor de logística, o desafio ultrapassa a tensão do sequestro. O problema se desdobra em custos operacionais elevados, prêmios de seguro proibitivos e a necessidade constante de revisitar rotas comerciais para garantir a integridade da cadeia de suprimentos.

O cenário atual dos piratas modernos
Diferente dos assaltos oportunistas em águas territoriais, a pirataria moderna em alto-mar é operada por redes organizadas. Esses grupos utilizam lanchas rápidas, armamento de guerra e tecnologia de rastreamento para interceptar navios mercantes longe da costa.
A motivação é quase sempre financeira, mas o modus operandi evoluiu. Hoje, há uma interseção perigosa entre pirataria e terrorismo geopolítico, o que amplia o risco para navios de qualquer bandeira, independentemente da carga transportada.
“Atualmente os piratas agem de maneira multifacetada. Em termos econômicos e financeiros, a pirataria moderna representa um desafio significativo para a indústria de transportes internacionais. Mais recentemente, os terroristas e piratas Houthis atacaram à distância por meio de drones as embarcações que atravessavam o Mar Vermelho”, lembra Angela Tripoli.

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As zonas de alto risco dos piratas modernos
Para realizar uma análise de risco logístico eficiente, é fundamental conhecer os hotspots globais. Historicamente, a costa da Somália (Chifre da África) sempre foi um ponto crítico, mas a geografia do crime marítimo é dinâmica e se desloca conforme a fiscalização aumenta.
Atualmente, o Golfo da Guiné, na costa oeste da África, e o Estreito de Malaca, na Ásia, figuram entre as rotas mais perigosas do mundo. O impacto disso é gigantesco, considerando que essas rotas são artérias vitais do comércio global.
“Em geral, os ataques ocorrem na costa da Somália, Estreito de Malaca e Singapura. Para se ter uma ideia, nas regiões controladas pelos piratas modernos circulam 15% do tráfego marítimo internacional de cargas”, cita a especialista.
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Impactos dos piratas modernos na segurança de cargas em alto-mar
O prejuízo financeiro causado pela pirataria não se resume apenas à carga roubada. O aumento do custo de seguro marítimo é uma consequência imediata após ataques recorrentes em determinadas zonas. As seguradoras aplicam às chamadas War Risk Clauses (Cláusulas de Risco de Guerra), encarecendo drasticamente o frete.
Além disso, há o custo do tempo. Para evitar zonas de conflito, armadores frequentemente desviam suas frotas. Um exemplo clássico é evitar o Canal de Suez para contornar o Cabo da Boa Esperança, adicionando dias de viagem e toneladas de consumo de combustível à operação.
“Em termos econômicos e financeiros, a pirataria moderna representa um desafio significativo para a indústria de transportes internacionais, resultando em perda de bilhões de dólares anualmente”, comenta a professora.
A decisão de mudar a rota é estratégica e visa proteger o ativo mais valioso: a vida da tripulação e a integridade da carga.
“Desta forma, muitos armadores utilizam rotas alternativas que, apesar de alongar o percurso, trazem segurança aos tripulantes, aos acionistas e a todos os envolvidos na cadeia logística e de supply chain”, complementa Angela.

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Estratégias de prevenção dos piratas modernos para a logística internacional
Diante desse cenário volátil, o setor de transporte marítimo investe pesadamente em protocolos de segurança e conformidade internacional para mitigar riscos.
O papel do Código ISPS
A principal resposta regulatória global foi a implementação do Código ISPS (International Ship and Port Facility Security Code). Criado após os ataques de 11 de setembro, este código estabelece padrões rigorosos de segurança para navios e instalações portuárias.
Ele obriga a realização de avaliações de vulnerabilidade e planos de segurança detalhados. O objetivo é garantir que o acesso aos navios seja controlado e que qualquer ameaça à segurança da carga seja detectada antes que se transforme em um incidente crítico.
Medidas físicas e tecnologias a bordo
Além da regulação, a proteção física é essencial. Navios modernos são equipados com Citadels (salas de pânico blindadas e incomunicáveis), canhões d’água e barreiras de arame farpado. A tecnologia também desempenha um papel crucial na detecção antecipada.
“Utilização de GPS com tecnologia de ponta que identifica movimentações suspeitas e atípicas em longas distâncias, treinamento rigoroso dos tripulantes e o uso de drones”, indica a entrevistada sobre as melhores práticas.

Vale a pena investir em segurança armada privada?
As estratégias de proteção armada de navios contra pirataria geram debates acalorados. Embora eficaz, o custo de manter equipes de segurança privada a bordo durante toda a viagem pode inviabilizar o lucro do frete. Além disso, existem complexidades legais sobre o porte de armas em águas internacionais e territoriais.
“Dispor de uma segurança privada preparada para se defender deste tipo de ação em alto mar de fato é inviável”, opina a entrevistada, referindo-se aos custos proibitivos para a totalidade da viagem.
No entanto, a solução encontrada pelo mercado é o uso cirúrgico dessas equipes apenas nos trechos mais perigosos.
“Contratação de escolta armada pelo menos para atuarem na cobertura da passagem dos navios nos locais mais vulneráveis”, conclui Angela Tripoli.
A segurança em alto-mar como diferencial competitivo
Navegar em águas seguras exige mais do que boa marinhagem; exige inteligência de mercado e planejamento de risco. Os impactos dos piratas modernos na segurança de cargas em alto-mar são uma realidade que afeta prazos e orçamentos, exigindo do gestor uma postura proativa na escolha de parceiros logísticos e rotas.
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