Nos últimos anos, a discussão sobre a criação de uma nova moeda do BRICS, que seria comum para os países do bloco – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – tem ganhado força.

A ideia de reduzir a dependência do dólar norte-americano e fortalecer as relações comerciais entre as nações membros é vista como uma tentativa para transformar a dinâmica econômica global.

Embora o objetivo principal da moeda seja facilitar transações dentro do bloco, sem substituir as nacionais, as implicações podem repercutir globalmente.

O impacto dessa moeda no comércio exterior brasileiro, inclusive, pode ser substancial, uma vez que o Brasil, um dos maiores exportadores do mundo, teria a chance de estreitar laços econômicos com países de peso, como China e Índia. 

Para entender melhor os efeitos dessa iniciativa no mercado internacional, conversamos com Filipe Gallotti, CEO da FIGA Biz – Escritório de Negócios, empresa especializada em apoiar transações no comércio exterior.

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O que é a nova moeda do BRICS?

A moeda proposta pelo bloco BRICS surge como uma resposta direta à crescente necessidade de desdolarização do comércio global. Diferentemente de uma nova moeda física, trata-se, na verdade, de um ambicioso sistema de pagamento internacional que busca criar uma alternativa ao sistema financeiro ocidental.

O principal objetivo é permitir que as nações-membro e seus parceiros realizem transações comerciais de forma mais eficiente, segura e com menor dependência do dólar americano, que atualmente domina as reservas internacionais e o comércio.

A criação de uma plataforma própria para pagamentos, conhecida como BRICS Pay, visa mitigar a exposição do câmbio e os riscos associados às oscilações da moeda estadunidense, além de reduzir custos de conversão.

Ao facilitar trocas diretas entre as moedas locais dos países do bloco (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o BRICS Pay fortalece as economias internas e promove uma maior autonomia financeira, redefinindo as dinâmicas do comércio exterior e da logística global.

Qual o estágio atual da discussão sobre a nova moeda do BRICS?

A proposta da criação de uma moeda comum entre os BRICS tem gerado, segundo Gallotti, amplos debates e expectativas no cenário econômico global. 

De acordo com o convidado, o conceito de uma moeda comum foi introduzido oficialmente na cúpula dos BRICS de 2023, realizada em Joanesburgo, na África do Sul.

“A proposta é impulsionada principalmente pela China e pela Rússia, que têm buscado alternativas para reduzir a dependência do dólar, especialmente em um cenário de tensões geopolíticas crescentes”, explica Gallotti.

Durante a cúpula, os líderes destacaram que a moeda seria voltada para transações comerciais entre os países membros, sem substituir as nacionais.

“Apesar do interesse comum, ainda há um longo caminho a percorrer. Desafios técnicos, como a definição de uma taxa de câmbio estável e o gerenciamento conjunto da moeda, permanecem sem solução”, complementa.

Conforme Filipe Gallotti, os economistas apontam que um dos próximos passos seria a criação de um fundo monetário ou um sistema financeiro integrado entre os membros, similar ao que a União Europeia desenvolveu com o euro.

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Quais são os desafios e vantagens da criação da nova moeda do BRICS?

Implementar a moeda BRICS no cenário atual global está longe de ser uma tarefa fácil. O contexto é complexo e traz diferentes desafios. Gallotti cita 3 deles, começando pela heterogeneidade econômica:

Tabela – Desafios para implementação de moeda comum
Fator Descrição / Impacto
Realidades econômicas Enquanto a China lidera como a segunda maior economia mundial, países como África do Sul e Brasil enfrentam desafios estruturais em suas economias.
Governança compartilhada A definição de como a moeda será gerida e quais critérios cada país deve seguir para sua implementação.
Aceitação global Para que a moeda tenha sucesso, será necessário convencer os mercados externos de sua estabilidade e confiabilidade.

Sobre as vantagens, o especialista enumera 3 principais, sendo a redução de custos cambiais, o fortalecimento das economias locais e a maior integração regional. 

“As transações comerciais entre os países do bloco seriam feitas diretamente, sem a necessidade de conversão para o dólar, reduzindo custos”, cita.

“Ao depender menos de moedas externas, os BRICS poderiam minimizar os impactos de flutuações no mercado global. E, ainda, a moeda incentivaria uma maior cooperação econômica entre os países membros”, completa.

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Qual a influência da nova moeda do BRICS nas exportações e importações brasileiras?

Na opinião de Filipe Gallotti, a adoção de uma moeda dos BRICS teria implicações diretas nas exportações e importações do Brasil.

“Produtos brasileiros, como soja, carne e minério de ferro, poderiam ser vendidos diretamente aos países do bloco sem os custos adicionais da conversão cambial. Isso tornaria as exportações mais competitivas”, prevê.

Além disso, ao eliminar a dependência do dólar, o Brasil poderia ter mais estabilidade nas transações com parceiros do bloco.

“Por outro lado, a maior integração com os BRICS poderia levar a desafios nas relações comerciais com mercados tradicionais, como Estados Unidos e União Europeia”, alerta.

O convidado traz alguns dados de 2022 para provar o seu ponto de vista. Segundo ele, em 2022 o Brasil exportou cerca de US$ 125 bilhões para os países do BRICS, com destaque para a China, que sozinha respondeu por US$ 89,7 bilhões desse total.

“Com uma moeda comum, esses números poderiam crescer ainda mais”, estima.

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Possível alteração da dinâmica das relações comerciais do Brasil com outros blocos, como a União Europeia e os EUA

A criação da moeda dos BRICS, na opinião do entrevistado, poderia alterar significativamente a dinâmica comercial do Brasil com outras regiões. Sobre a relação com os Estados Unidos e a União Europeia, Gallotti explica: 

“A redução da dependência do dólar poderia gerar tensões diplomáticas, mas também abrir espaço para negociações bilaterais mais equilibradas”.

Já sobre outros mercados, “a moeda dos BRICS poderia fortalecer as parcerias do Brasil com economias da África e do Oriente Médio, que buscam maior independência do dólar”. 

“A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que o comércio internacional fora da esfera do dólar pode crescer até 25% até 2030, caso iniciativas como a dos BRICS avancem”, comemora.

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Expectativas de impacto da nova moeda do BRICS na economia brasileira

A curto prazo, Gallotti ressalta que o Brasil precisaria adaptar o seu sistema financeiro e implementar novas tecnologias para suportar a moeda dos BRICS. 

“Durante a transição, pode haver flutuações nas taxas de câmbio e impactos nas exportações”, prevê.

Por outro lado, a longo prazo, o entrevistado imagina que deve haver um fortalecimento econômico e uma diversificação de mercados.

“A moeda comum poderia aumentar a competitividade das exportações brasileiras e atrair mais investimentos estrangeiros para o país. O Brasil poderia reduzir a dependência de mercados tradicionais e explorar novos parceiros comerciais”.

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Qual o papel do Brasil na consolidação da nova moeda do BRICS?

Na visão de Filipe Gallotti, o Brasil desempenha um papel estratégico no sucesso dessa iniciativa.

“Como líder na exportação de commodities, o país seria um dos maiores beneficiados pela redução de custos cambiais. Além disso, a diplomacia brasileira, historicamente voltada para o multilateralismo, pode atuar como um mediador entre os interesses divergentes dos membros do bloco”, destaca.

“Adicionalmente, o Banco Central do Brasil tem liderado projetos de digitalização financeira, como o Real Digital, que pode servir de base para a integração tecnológica necessária à implementação da moeda dos BRICS”, finaliza Gallotti.

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