Nossa área é cheia de desafios diários, situações complexas demais para serem resolvidas por outros departamentos. Somos movidos por números, previsões e um pouco de sorte, eu diria. E nesse ambiente, no mínimo peculiar, nossa cabeça é voltada a resolver desafios diários, equilibrar contas e trazer bons resultados aos nossos clientes ou aos nossos empregadores. Sim, a vida do profissional de comex vai além do que apenas ligar para a China e fechar um pedido.
Falo isso pois envolve outras situações, como classificação de carga feita precipitada demais, embarques em horários complexos como os tais dos peak seasons ou mesmo a falta de planejamento quanto a tempo versus estoque. Sim, por mais que seja vendido por aí que estoque é custo, eu contesto isso e digo que estoque de segurança é libertador e custo é quando o item demora a sair ou não sai.
E os intervenientes então? A cadeia que atende aos contratantes, sendo ela importador ou exportador também onera ou desonera a operação. O tal do “time que está ganhando não se mexe” não é uma realidade ao comex.
E quem disse que o custo ou a operação é a mais bem ofertada por aquele agente de carga ou despachante que já estão na casa faz mais de 15 anos? Vamos ser claros, quem não olha mercado, serviços e se acomoda tem grandes chances de gastar mais do que o concorrente. E esse é outro ponto a ser visto também, os seus concorrentes. Afinal, seu mercado é tão aquecido assim? Seu concorrente traz produto bom e mais barato que você? São muitas informações a serem analisadas…
E tem situações por aí que ninguém consegue entender, principalmente os clientes externos que nada sabem de importação e te contratam para fazer o serviço. Numerário pago pode ter retorno financeiro ou não, tudo depende da paridade do dólar do registro.
Valor aduaneiro é valor CIF da carga (FOB + FRETE + SEGURO) mesmo que a carga venha em EXW ou FOB. Frete internacional marítimo dura em média 45 dias (Frete direto de Qingdao na China até Santos) e não é teletransporte ou dá para acelerar o navio. Além disso, a carga chega em algum porto e além de ser operacionalizada (média 2 dias, mas tende a cair com a DUIMP), o gargalo maior pode ser no pós-desembaraço, ou seja, janelas de carregamentos.
Não falamos de receita de bolo como falam por aí. E isso nem estou considerando as greves da RFB, as omissões de portos ou mesmo os atrasos com equipamentos (navios) em tempestades, atrasos de portos no meio do caminho. Ou mesmo cargas em canais diferentes de verde, que podem puxar demurrages indevidas, multas de classificação ou mesmo análise pericial, se assim o auditor fiscal quiser.
São várias vertentes, complexas e a sua idéia de que “a fábrica vai parar” ou mesmo “o cliente vai cancelar o pedido pq não entreguei” é mais um grande erro de planejamento. Trabalhei em uma empresa uma vez onde a programação era extremamente justa quanto a entrega de importações, a ponto de cargas chegarem e nem serem analisadas internamente, já saíam automaticamente.
Quando algo acontecia além do estimado, era quase um “Armagedon” interno. A cadeia de intervenientes era estressada, as correrias internas aumentadas ao extremo e tudo porque, as compras das cargas eram feitas erradas ou não atendiam o PCP, Importação e Logística.
Ou seja, o erro estava em compras e não no resto da cadeia. E qual a conclusão? Ahhh, o bom e velho planejamento, a idéia de compras pedir antecipação aos clientes quando existiam cargas em programação de entrega ou mesmo a análise quase que fria do quanto pedir. A credibilidade da empresa ficou bem melhor e a empresa teve seus clientes salvos, ou seja, conseguiu ter retorno de mercado e busca de novos clientes.
Mas o trabalho não morre aí. E o que temos que fazer, como profissionais da área de comex, é “lutar” contra essa idéia rasa de que não podemos olhar para mercado ou mesmo procurar novos fornecedores, sendo ele de produtos ou serviços. E isso dói quando nós vendemos serviços. Quantas vezes não tive que trocar de parceiros vendidos pois este não estava falando a mesma língua que eu? Ou aquele que parece seu amigo, mas “te queima” para o mercado. Aliás, o mercado, como diria uma professora minha de faculdade: “Não existe amizade, existe preço, qual o seu?” Hoje, não brigo mais com isso.
O artigo está longo demais, mas falei muita coisa que é óbvia, mas precisa ser dita. E aliás, a tendência de voltarmos ao ponto de partida, cometermos os mesmos erros e entrar em um looping gigantesco de erros é uma linha tênue entre o que foi conquistado e a zona de conforto. Por fim, quem vive na zona de conforto no comex tende a ser engolido pelo mercado. E ninguém quer isso, certo?
E lá vamos nós para mais um dia de trabalho. Estamos prontos para isso?