A digitalização das operações logísticas tem transformado o mercado e aberto novas oportunidades para a Geração Z. Essa mudança é impulsionada pela crescente demanda por profissionais com maior domínio tecnológico.

De acordo com a 5ª edição do Guia sobre Tendências de Gestão de Frotas e Logística, realizado pela Platform Science, a presença de jovens no setor de frotas e logística no Brasil está crescendo de forma acelerada.

O levantamento mostra que a participação desses profissionais em frotas e logística quase dobrou em dois anos, passando de 10,5% para 19,5%. Ao mesmo tempo, os millennials já são maioria, com 52,8% da força de trabalho.

O estudo também revela um alto nível de qualificação entre os trabalhadores da área: atualmente, 83,6% dos profissionais possuem ensino superior ou pós-graduação.

Para entender melhor como se dá esse movimento, o Modal Connection conversou com o diretor-executivo LATAM da Platform Science, Rony Neri.

Ele explica que a substituição de processos manuais por plataformas digitais passou a exigir competências tecnológicas que se alinham naturalmente ao perfil da Geração Z. “São profissionais com maior facilidade em análise de dados, uso de sistemas e automação”, afirma Neri.

No entanto, essa transição não ocorre sem desafios. Segundo o Guia, 41% das empresas apontam a diferença geracional como a principal barreira para a transformação digital, enquanto apenas 27% das organizações alcançaram uma integração total de dados.

“Competências tradicionais, focadas apenas na operação, já não são suficientes. O setor exige hoje uma visão analítica, capacidade de liderança, desenvolvimento contínuo de equipes e agilidade na tomada de decisão”, afirma Neri.

A aplicação da tecnologia na prática ainda está em adaptação

Embora o perfil da força de trabalho esteja mudando, a adoção de tecnologias avançadas no setor logístico ainda ocorre de forma desigual. De acordo com a pesquisa, apenas 13,5% das empresas utilizam inteligência artificial de maneira integrada às operações.

Por outro lado, ferramentas já consolidadas apresentam alta presença no mercado: 94% das empresas utilizam GPS, 85% telemetria e 73,2% videomonitoramento. Sensores com recursos de IA para detecção de fadiga também estão em destaque, sendo utilizados por 70% das companhias.

O uso de dados tem ganhado espaço na gestão das operações, com 72,6% das empresas adotando ferramentas de Business Intelligence, o que reforça uma abordagem mais analítica e orientada por indicadores. “A nova geração valoriza ambientes que combinam tecnologia, segurança e propósito. A logística moderna, ao reduzir acidentes e aumentar a eficiência da cadeia, passa a atender essa expectativa”, explica o responsável pelo estudo.

Os desafios da força de trabalho no setor logístico

Acompanhe os detalhes da conversa exclusiva com o especialista, que aborda as tendências e oportunidades relacionados à força de trabalho no setor logístico. 

Modal Connection: Quais os motivos que levam à escassez de mão de obra no setor de logística atualmente?

Rony Neri: A escassez de mão de obra na logística e no transporte tem origem em uma combinação de fatores culturais, demográficos e operacionais.

No caso dos motoristas profissionais, houve uma quebra geracional importante. Antigamente, muitos filhos acompanhavam os pais nas viagens e criavam uma conexão emocional com a profissão desde cedo. Hoje, o transporte se tornou mais profissionalizado, as empresas restringem acompanhantes nas cabines, as jornadas são mais tensas e as estradas mais complexas. Isso reduziu muito o vínculo afetivo das novas gerações com a profissão.

Além disso, a rotina do setor continua sendo desafiadora. Estamos falando de operações que funcionam 24 horas por dia, incluindo noites, finais de semana e feriados. Para muitos jovens, especialmente da Geração Z, isso entra em conflito com expectativas de qualidade de vida, flexibilidade e equilíbrio pessoal.

Outro ponto importante é a transformação do comportamento dessa geração. Diferentemente das gerações anteriores, muitos jovens já cresceram utilizando aplicativos de mobilidade e têm uma relação menos emocional com veículos e direção. Hoje, os índices de habilitação entre os jovens são menores do que em décadas anteriores.

Ao mesmo tempo, o setor passa por um envelhecimento acelerado da força de trabalho. Em muitas operações, a faixa etária predominante dos motoristas já está acima dos 50 anos, justamente em um momento em que os veículos estão cada vez mais tecnológicos e digitais.

MD: O setor logístico enfrenta um desinteresse crescente por parte das novas gerações?

Rony Neri: Existe um desafio claro de atração, mas ele não está ligado apenas ao setor de logística. A Geração Z busca ambientes mais tecnológicos, dinâmicos e conectados com propósito, desenvolvimento e flexibilidade.

Historicamente, logística e transporte carregaram uma imagem de trabalho excessivamente operacional, repetitivo e desgastante. Embora o setor esteja evoluindo rapidamente em tecnologia, automação e inteligência operacional, essa percepção ainda existe.

Na área administrativa, por exemplo, muitas empresas operam torres de monitoramento logístico em tempo real, funcionando 24 horas por dia. Isso exige equipes em turnos e jornadas noturnas, algo que muitos jovens evitam atualmente. Como consequência, há alta rotatividade em diversas funções operacionais e analíticas.

Por outro lado, existe um movimento forte de modernização. As empresas estão investindo em ambientes mais tecnológicos, estruturas mais organizadas, automação de processos e programas de desenvolvimento profissional justamente para aproximar o setor do perfil dessa nova geração.

MD: Quais são os fatores que dificultam a contratação de jovens no setor de transportes?

Rony Neri: O principal ponto é que o transporte deixou de ser percebido como um caminho natural de carreira para os jovens.A profissão de motorista, por exemplo, exige longas jornadas, alto nível de responsabilidade, deslocamentos constantes e uma rotina distante da família. Em paralelo, as novas gerações valorizam estabilidade emocional, tempo livre, conectividade e flexibilidade profissional.

Existe também um componente cultural importante: o jovem de hoje é muito mais conectado ao universo digital do que ao universo automotivo. Antigamente, dirigir era um símbolo de independência. Hoje, muitos jovens utilizam aplicativos de mobilidade e sequer têm urgência para tirar carteira de habilitação.

Além disso, a logística compete por talentos com setores de tecnologia, varejo digital e serviços, que muitas vezes oferecem ambientes considerados mais atrativos para essa geração.

O resultado é um cenário em que o setor precisa não apenas contratar, mas também reconstruir sua imagem como ambiente moderno, tecnológico e com oportunidades reais de crescimento.

MD: Quais estratégias podem ser adotadas para atrair e capacitar jovens para esse mercado?

Rony Neri: As empresas mais avançadas estão entendendo que não basta apenas abrir vagas. É preciso transformar a experiência de trabalho. Isso passa por investimentos em tecnologia, digitalização e melhoria das condições operacionais. Hoje já vemos centros logísticos e escritórios muito mais estruturados, climatizados e organizados do que no passado.

Outra iniciativa importante é a criação de programas de carreira mais claros e estruturados. Quando o jovem consegue visualizar possibilidades reais de crescimento, desenvolvimento técnico e evolução profissional, o setor se torna mais atrativo.

Na operação de transporte, a tecnologia também tem papel fundamental. Interfaces mais intuitivas, redução da quantidade de dispositivos dentro da cabine e sistemas inteligentes de apoio à condução tornam o trabalho mais confortável e seguro.

Além disso, muitas empresas passaram a investir em automação para reduzir tarefas excessivamente repetitivas e operacionais, aproximando o ambiente de trabalho da realidade digital com a qual essa geração já está acostumada.

MD: Existe um déficit atual no setor e quais medidas podem ser tomadas para reverter essa situação?

Rony Neri: O déficit de profissionais já é percebido em praticamente toda a cadeia logística, especialmente no transporte rodoviário e em funções operacionais que exigem trabalho em turnos.

A tendência é que esse desafio continue crescendo com o envelhecimento da força de trabalho e a baixa entrada de novos profissionais.

A solução não virá de uma única iniciativa. O setor precisará atuar em várias frentes ao mesmo tempo:

  • modernização das operações;
  • melhoria das condições de trabalho;
  • uso intensivo de tecnologia;
  • programas de formação;
  • valorização da profissão;
  • ampliação da segurança operacional.

Existe também um movimento importante de retenção dos profissionais mais experientes. Muitas empresas passaram a investir em tecnologias de assistência à condução e ergonomia para permitir que motoristas mais velhos continuem ativos por mais tempo, com segurança e qualidade de vida.

Ou seja, além de atrair novos profissionais, o setor também busca aumentar o ciclo produtivo e sustentável dos condutores mais experientes.

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