A evolução tecnológica está mudando o setor de transporte e infraestrutura no Brasil, e a intermodalidade surge como a resposta mais estratégica para gestores que planejam investimentos e operações nos próximos anos. Durante o painel “A Nova Mobilidade Urbana”, realizado no Futurecom Leaders Congress 2026 (6 a 8 de outubro, em São Paulo), especialistas de diferentes modais debateram automação, conectividade e integração de sistemas — e deixaram claro que as decisões de preparação para esse novo cenário precisam começar agora, não em 2028.

Para lideranças do setor, o recado é direto: tecnologia já não é um diferencial opcional, mas o fator que reduz custos, amplia segurança e decide a competitividade de cada modal.

Começando pelo modal rodoviário, Luciano Driemeier, gerente global de negócios conectados da Ford, abordou a conectividade e a inteligência artificial na evolução dos automóveis. Na visão dele, o automóvel moderno mudou de papel. A indústria automotiva aponta para uma mobilidade totalmente integrada e proporcional, onde há espaço para diferentes modais coexistirem.

“O carro hoje é o celular sobre rodas. A maior evidência é que, por exemplo, nós já mandamos mais de 1 milhão de atualizações over-the-air dos nossos carros aqui no Brasil”.

Luciano explicou ainda que essa conectividade constante permite a aplicação de inteligência artificial para realizar manutenções preventivas em tempo real, com o objetivo de que o veículo conectado “nunca pare”. Além disso, o avanço da autonomia caminha para além da assistência ao motorista (como a direção sem as mãos já regulada nos EUA). No futuro, a autonomia total e a comunicação veículo-para-tudo (V2X) permitirão que os carros operem de forma coletiva e inteligente, antecipando ações como frenagens sem depender apenas dos sentidos humanos.

Sobre o custo da conectividade e a pressão por monetização de telas nos veículos, o porta-voz da Ford foi enfático: “Nós, Ford, não temos a intenção de monetizar a tela. Valorizamos muito mais os serviços que tornam a experiência de ter um carro algo melhor, mais barato e mais prazeroso do que simplesmente colocar um anúncio.”

eVTOLs: a mobilidade aérea urbana

A Eve Air Mobility, empresa criada dentro da Embraer, confirmou as primeiras entregas comerciais de eVTOLs — aeronaves 100% elétricas de pouso e decolagem vertical — para 2028. Sergio Tomasella, head de serviços e suporte da companhia, apresentou não só o cronograma, mas um conjunto de soluções que interessa diretamente a gestores públicos e operadores de infraestrutura.

Para decisores do setor, os pontos de atenção são:

  • Carteira de pedidos já fechada, com 28 clientes em dez países, entre eles a brasileira Revo, que encomendou 50 unidades — sinal de demanda real, não só de expectativa.
  • Capacidade de produção de até 120 aeronaves por ano na fábrica de Taubaté, compatível com operação comercial em escala.
  • Necessidade de vertipostos — pontos de pouso, recarga elétrica e logística de passageiros — que vão exigir planejamento urbano e investimento conjunto do poder público e da iniciativa privada.
  • Dependência de uma rede robusta de transmissão de dados para monitorar em tempo real a aeronave e as baterias, o que coloca a conectividade no centro da operação.

O principal obstáculo apontado é regulatório. A certificação para voos com passageiros junto à ANAC, FAA e EASA está prevista para 2027, com testes concentrados na unidade de Gavião Peixoto, no interior de São Paulo. Para Tomasella, a corrida da mobilidade aérea urbana não é de protótipos, mas de serviço, infraestrutura e articulação entre empresas — o que torna o planejamento antecipado por gestores públicos e operadores logísticos um fator decisivo.

Automação ferroviária

Fabio Siqueira Netto, CEO do Metrô de São Paulo, contou a história da automação sobre trilhos, um relato útil para gestores de infraestrutura que avaliam investimentos em sistemas de controle e segurança.

A trajetória, em três marcos:

  • Sinalização visual e blocos fixos (modelo original, usado desde a inauguração do metrô de Londres, em 1863), que limitava a frequência de trens por exigir grandes distâncias de segurança entre composições.
  • ATC (Automatic Train Control), com os subsistemas ATP (que aciona freios em caso de falha humana) e ATO (piloto automático), já presentes na Linha 1-Azul do Metrô de São Paulo desde sua inauguração, em 1974.
  • CBTC (Communications-Based Train Control), a partir da década de 1990, que trocou os blocos fixos por blocos móveis virtuais, permitindo maior proximidade segura entre trens e, com isso, mais capacidade de transporte sem precisar construir novas linhas.

Em 2026, o Metrô de São Paulo opera no nível máximo de automação, o GoA 4 (UTO, Unattended Train Operation): trens sem condutor, supervisionados remotamente por um Centro de Controle Operacional. As linhas 4-Amarela e 6-Laranja mostram os ganhos na prática: intervalos mais curtos entre trens, mais regularidade, economia de energia e menos falhas humanas.

Netto destacou uma exigência que gestores precisam ter em mente ao avaliar esse nível de automação: portas de plataforma em todas as estações são obrigatórias por norma mundial de segurança. Ele também separou as redes de “missão crítica”, usadas na operação e segurança dos trens, dos serviços de conectividade oferecidos aos passageiros, como Wi-Fi — uma distinção que importa para quem planeja investir em infraestrutura de rede.

Integração de modais: o desafio da “coopetição”

O maior desafio apontado no painel não é tecnológico, mas organizacional: juntar diferentes modais numa única jornada para o passageiro. Tomasella deu um exemplo simples: uma rota que começa de carro, segue de eVTOL e termina a pé ou sobre rodas, tudo organizado por uma única plataforma.

Para que isso funcione, Driemeier falou em “coopetição”: empresas competem entre si por soluções mais eficientes, mas cooperam na construção de plataformas que gerem demanda suficiente para todos os modais envolvidos. Os especialistas foram unânimes num ponto: essa integração só avança com autoridades metropolitanas capazes de organizar o sistema, evitar que linhas se sobreponham de forma ineficiente e garantir acesso ao transporte.

O Futurecom 2026 deixou uma mensagem clara para as lideranças do setor: o futuro da mobilidade não vai ser dominado por um único modal ou uma única solução tecnológica, mas por uma rede de redes conectadas por dados em tempo real. As decisões sobre infraestrutura de vertipostos, sistemas de automação ferroviária, conectividade veicular e integração de plataformas precisam ser tomadas agora — os prazos regulatórios e de implantação para 2027 e 2028 já estão correndo.