Ahhh, o Comex, a área que tanto amo e escolhi para trabalhar. São regras aduaneiras aqui, Incoterms ali e tantas outras situações corriqueiras que vivemos no dia a dia. Negociar uma carga que está na Holanda e fazê-la chegar ao porto de Santos para, em seguida, ser entregue, eu diria que exige muito mais do que uma simples negociação. O profissional que ocupa a cadeira do Comex precisa, além de dominar as regras básicas mencionadas, respeitar os prazos de cada interveniente, classificar a carga no NCM correto e, acima de tudo, ser alguém íntegro, capaz de diferenciar o certo do errado.
E é nesse ponto que podemos ser corrompidos. Sinceramente, quando vejo um profissional excelente, que realmente domina o que faz, sucumbir ao lado obscuro da força, a decepção é imensa. Isso pode começar com algo aparentemente simples, como fechar os olhos e concordar com uma assinatura falsa em um documento que nunca foi assinado, até chegar aos crimes aduaneiros mais graves e comuns que existem.
A minha primeira experiência com Comex em um importador foi de um crescimento quântico. Ali, de fato, aprendi o que era importar por uma empresa. No entanto, a empresa não compartilhava os mesmos princípios que me foram ensinados pelos meus antepassados (pais, avós) e tudo aquilo que aprendi ao longo da vida.
Nessa experiência, o chamado “câmbio correto e câmbio por fora” era uma prática recorrente. Por exemplo, se um produto custava USD 10,00, meu gestor da época determinava que fosse declarado como USD 3,00, exigindo que eu criasse documentos falsos em Excel com valores subestimados. O montante não declarado era pago via doleiro.
Essa prática configura crimes graves, como falsificação de documentos, evasão de divisas, operação de câmbio ilegal e, dependendo do contexto, outros ilícitos previstos na legislação. Além de ser moralmente condenável, tais ações comprometem a integridade do profissional e colocam em risco a reputação e a sustentabilidade da empresa.
E eu tive resultados terríveis, desde um quase surto que tive e não conseguia dormir mais até um início de síndrome do pânico. Tinha que pagar contas, era o meu início de carreira. A solução? Comecei a fazer aulas de boxe e literalmente explodia quando tinha que bater no boneco. Ali jogava toda a minha frustração e toda a minha raiva. Não contra o meu chefe e a empresa que ele estava, mas sim, pq eu estava ali.
Ali sabia que tudo o que aprendi a minha vida toda, como princípios, caráter e o certo errado era totalmente oposto. Saí da empresa e segui a vida.
Hoje, mais de 20 anos após isso, ainda vejo empresas cometerem esses crimes, fazerem com que o Comex seja contaminado, com que nós dessa área sejamos vistos como corruptos, imorais ou no mínimo uma área de práticas ilegais e crimes. E eu combato isso.
Sempre gostei de Star Wars. A transformação de Anakin Skywalker em Darth Vader mostra que ninguém se torna um vilão de uma hora para outra. São pequenas decisões, pequenas concessões e pequenos desvios que acabam levando ao lado obscuro.
Aqui contei uma história que existe na cultura pop, mas na grande verdade quantas vezes não nos corrompemos? E sim, saber que uma carga classificada em um NCM errado de propósito, só pq vai se pagar menos imposto pode ser um começo de qualquer coisa errada. Dependendo da conduta e das circunstâncias, práticas como essas podem configurar crimes como:
· Evasão de divisas;
· Lavagem de dinheiro;
· Corrupção ativa;
· Falsificação de documentos;
· Associação criminosa;
· Crime contra o fisco;
· Sonegação fiscal;
· Operação de câmbio ilegal;
Só aqui listei 8 crimes que são mais frequentes do que muitos imaginam. E infelizmente acontece de pequenas a até empresas gigantescas. Basta uma pessoa errada para a corrupção começar dentro de uma empresa. E basta alguém maior comprar a ideia. Pronto, está feito o estrago.
E as operações da RFB juntamente com a Polícia Federal que vão atrás de empresas assim? Dirigentes são presos, empresas fechadas e empregos perdidos. Aí vem a máxima: “Ahhhh, Thiago, preciso pagar conta, trabalho na empresa, mas fecho os olhos para isso.” Parabéns, vc no mínimo é cúmplice de algo que é errado. A solução mais simples e brusca é sair da empresa, a mais branda e correta é ativar suas redes de contato, procurar um ambiente de emprego melhor e que segue regras e a lei.
Gente, eu sei que este artigo está longo, pesado e até complexo, mas preciso dizer: odeio quando as pessoas acham que todos os profissionais de Comex são corruptos ou que estamos inclinados a cometer crimes. Não temos um juramento formal como os médicos, que fazem o famoso Juramento de Hipócrates, mas acredito que, ao nos formarmos em Comex, também assumimos um compromisso implícito de sermos éticos e íntegros.
É nossa responsabilidade agir com honestidade, respeitar as leis e os princípios que regem nossa profissão. E, claro, é essencial afastar o “Darth Vader” que pode existir dentro de nós, lembrando sempre que o caminho certo é o que nos traz verdadeira realização e respeito.
O lado obscuro do Comex não começa quando alguém falsifica um documento. Ele começa quando alguém acredita que fazer o errado vale a pena. Felizmente, todos os dias podemos escolher o caminho oposto.
Existe um lado obscuro no Comércio Exterior. E ele não começa com grandes esquemas milionários. Ele começa quando alguém diz: “É só desta vez.”