Ahhh o comex, a área que me especializei e amo tanto. Entre os inúmeros documentos que fazem o processo acontecer e os diversos intervenientes contratados para garantir que a carga chegue ao cliente, existem pontos essenciais que podem determinar o sucesso ou levar ao completo descontrole do processo. E, nesse contexto, um fator determinante é a gestão de tempo.
E sim, o profissional experiente, estratégico e bem preparado já entende a importância de trabalhar com tempos e prazos, sabendo exatamente quando agir, quando ativar gatilhos e quais preocupações priorizar. Um profissional que domina o tempo de um embarque demonstra não apenas experiência, mas também maturidade e expertise. Ele não se deixa abalar pelas pressões, sabe equilibrar as ações e entende o momento certo de conversar com A ou B.
Além disso, compreende que a carga não chegará em Santos por teletransporte, tendo embarcado ontem de Ningbo, nem que os navios serão acelerados porque “a fábrica parou”. Aliás, esses dois últimos cenários refletem mais falhas de programação interna da empresa do que problemas relacionados à área de comex em si.
Quando falamos em Comércio Exterior, é comum associarmos o sucesso de uma operação apenas ao transporte internacional. No entanto, a realidade é bem diferente.
Um embarque internacional começa muito antes de um contêiner ser carregado em um navio ou de uma carga embarcar em um avião. Da mesma forma, ele não termina quando a mercadoria chega ao porto ou aeroporto de destino.
Na prática, o sucesso de uma operação depende da gestão eficiente do tempo em todas as suas etapas. E é justamente aí que muitas empresas perdem competitividade.
O tempo começa na negociação
Antes mesmo da emissão da primeira fatura comercial, diversas decisões impactam diretamente o prazo final da operação:
- negociação comercial;
- definição do Incoterm;
- escolha do fornecedor;
- modalidade de pagamento;
- planejamento logístico;
- definição do modal de transporte.
Uma decisão equivocada nessa fase pode gerar semanas de atraso posteriormente. Planejamento não reduz apenas riscos. Ele reduz custos.
Cada etapa possui seu próprio prazo
Uma operação internacional passa por inúmeras fases, e cada uma delas possui atividades críticas.
Entre elas:
- preparação da mercadoria;
- embalagem adequada;
- etiquetagem;
- emissão documental;
- licenciamento quando necessário;
- despacho aduaneiro na origem;
- agendamento do embarque;
- transporte internacional;
- desembaraço aduaneiro;
- transporte interno;
- entrega ao cliente.
O erro de muitas empresas é olhar apenas para o prazo do transporte internacional. Na realidade, o tempo de navegação ou de voo representa apenas uma parte do ciclo logístico. Em diversas operações, os maiores atrasos acontecem antes mesmo da carga sair do país de origem.
O modal influencia diretamente os prazos
Cada modal possui características específicas.
Transporte Aéreo
É o mais rápido. Ideal para cargas urgentes, de alto valor agregado ou que exigem reposição imediata. Entretanto, possui custos significativamente maiores.
Transporte Marítimo
É o modal mais utilizado no comércio internacional. Apresenta excelente relação custo-benefício para grandes volumes, porém exige planejamento devido aos maiores tempos de trânsito.
Transporte Rodoviário
É fundamental tanto nas operações nacionais quanto nas internacionais, principalmente em integrações multimodais e operações na América do Sul. Sua eficiência depende diretamente das condições de infraestrutura, fronteiras e disponibilidade operacional.
Não existe modal melhor, existe o modal mais adequado para cada operação. E todos tem ônus e bônus, vale a pena estudar cada um. Além disso, o tal “time que está ganhando” se mexe sim!
Tempo perdido custa dinheiro
Uma gestão inadequada dos prazos pode gerar consequências importantes:
- armazenagem adicional;
- demurrage;
- detention;
- perda de booking;
- multas contratuais;
- perda de vendas;
- paralisação da produção;
- ruptura da cadeia de suprimentos;
- insatisfação do cliente.
Em alguns casos, um único atraso pode comprometer meses de planejamento.
Gestão de tempos é gestão de riscos
Empresas maduras deixam de “apagar incêndios” e passam a gerenciar cronogramas.
Isso significa acompanhar diariamente indicadores como:
- lead time de fornecedores;
- tempo médio documental;
- prazo para emissão de certificados;
- tempo de despacho aduaneiro;
- trânsito internacional;
- desempenho dos intervenientes;
- tempo de entrega ao cliente.
Quando esses indicadores são monitorados continuamente, os desvios são identificados antes de se transformarem em problemas.
Tecnologia faz diferença
Hoje existem diversas ferramentas capazes de acompanhar uma operação praticamente em tempo real. Dashboards, sistemas integrados, rastreamento logístico e indicadores de performance permitem que decisões sejam tomadas rapidamente.
A tecnologia não elimina imprevistos. Mas reduz significativamente seus impactos.
O papel dos intervenientes
Outro ponto frequentemente negligenciado é a escolha dos parceiros. Transportadoras, agentes de carga, despachantes aduaneiros, tradings, armazéns alfandegados, seguradoras e operadores logísticos fazem parte da mesma engrenagem. Quando um elo falha, toda a cadeia sofre.
Por isso, escolher parceiros apenas pelo menor preço normalmente representa um falso ganho. Competência, comunicação e previsibilidade costumam gerar economias muito maiores.
O cliente compra prazo, não apenas produto
Independentemente do segmento, o cliente espera receber exatamente aquilo que foi prometido. No Comércio Exterior, cumprir prazos significa transmitir confiança.
Empresas que entregam previsibilidade conquistam diferenciais competitivos que vão muito além do preço. Elas fortalecem relacionamentos, aumentam sua credibilidade e constroem operações sustentáveis no longo prazo.
Conclusão
O transporte internacional é apenas uma das etapas de uma operação de Comércio Exterior. O verdadeiro diferencial competitivo está na gestão do tempo desde a negociação comercial até a entrega final ao cliente.
Cada documento emitido no momento correto, cada aprovação obtida sem atraso e cada decisão tomada antecipadamente representam dias economizados e custos evitados.
No Comex, tempo não é apenas uma variável operacional. Tempo é estratégia, competitividade e resultado.
Além disso, existem questões como atrasos que fogem as mãos do importador, como liberações da carga na origem, greves de RFB, transbordos de carga no meio do caminho ou mesmo congestionamentos de portos na origem ou no destino. E os “canais diferentes de verde?” Sim, toda carga está sujeita a conferência da RFB.
Se a carga é marítima e está vindo da China para Santos, por exemplo, entre fabricação e entrega eu sempre conto uma média de 75 dias. No aéreo, reduz sim, para média de 40 dias. Rodoviário, bem, aí é mais complexo, pois nem sempre a carga que vem do Chile vai chegar em 3 dias em São Paulo. Vale ter a tal margem de gordura de tempo. Aliás, é prudente isso.
Como diriam os mais experientes, “cada caso é um caso, cada CNPJ é um CNPJ” e não é receita de bolo (aliás, odeio essa expressão e ela não cabe para comex). E quem sabe trabalhar documentos em tempos de embarque, sabe entender que não vale a pena pressionar quem não deve ser pressionado.
E você?
Na sua experiência, qual etapa costuma gerar os maiores atrasos em uma operação internacional: documentação, transporte, desembaraço aduaneiro ou comunicação entre os envolvidos?