O modal rodoviário é o principal meio de transporte no Brasil, sendo responsável por cerca de 65% das cargas movimentadas e quase 95% do transporte de passageiros, conforme aponta a Pesquisa CNT de Rodovias (2024). Essa predominância reflete não apenas a abrangência do modal, mas também sua relevância estratégica para a economia e a sociedade brasileira, conectando regiões e impulsionando o desenvolvimento.
Com uma malha rodoviária que ultrapassa 1,7 milhão de quilômetros, o país enfrenta desafios estruturais significativos. Apenas 12,4% das estradas são pavimentadas, o que limita a eficiência logística e aumenta os custos operacionais. A qualidade da infraestrutura rodoviária é um fator crítico para a competitividade econômica, especialmente em um país de dimensões continentais como o Brasil, onde o transporte rodoviário é essencial para o escoamento de produtos agrícolas, industriais e para o deslocamento de pessoas.
De acordo com a pesquisa da CNT (Confederação Nacional do Transporte), houve uma melhora na qualidade das rodovias brasileiras em 2025. Entre os 216.976 km de rodovias pavimentadas no país, foram avaliados 114.197 km, o equivalente a 52,6% da malha total. Desses, 37,9% (43.301 km) foram classificados como em condições ótimas ou boas, representando um aumento de 4,9 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Esse avanço, embora positivo, ainda deixa 62,1% da malha analisada em condições regulares, ruins ou péssimas, evidenciando a necessidade de investimentos contínuos para superar os gargalos existentes.
Segundo o levantamento, os avanços observados estão diretamente relacionados à retomada gradual dos investimentos em infraestrutura e à ampliação da malha concedida à iniciativa privada.
A concessão de rodovias tem se mostrado uma estratégia eficaz para melhorar a qualidade das estradas, com maior eficiência na gestão e na aplicação de recursos. No entanto, o ritmo de melhorias ainda é insuficiente para atender às demandas crescentes do setor de transporte e reduzir os custos logísticos, que continuam elevados.
Essa situação impacta diretamente a eficiência da gestão do transporte rodoviário, exigindo esforços constantes para garantir o tráfego seguro e eficiente de pessoas e mercadorias. Além disso, a precariedade de grande parte da malha rodoviária aumenta os riscos para os usuários, tanto em termos de segurança quanto de confiabilidade no transporte.
Para que o Brasil possa consolidar sua posição como um dos principais players no comércio global, é imprescindível que os investimentos em infraestrutura rodoviária sejam ampliados e que políticas públicas sejam implementadas de forma integrada, visando à modernização e à sustentabilidade do setor.
Infraestrutura de pavimentos
A qualidade do pavimento rodoviário exerce influência direta sobre os custos operacionais do transporte no Brasil, conforme aponta a Pesquisa CNT de Rodovias. O estudo revela que vias em condições inadequadas aumentam significativamente o consumo de combustível, aceleram o desgaste dos veículos e prolongam o tempo de deslocamento.
De acordo com a pesquisa, a condição do pavimento pode elevar, em média, os custos operacionais em 31,2%. Nas rodovias sob gestão pública, onde a maioria dos trechos apresenta problemas, esse aumento pode alcançar 35,8%. Já nas rodovias concedidas, embora a situação seja relativamente melhor, 34,4% dos trechos ainda apresentam irregularidades, resultando em um acréscimo médio de até 18,4% nos custos em comparação com rodovias classificadas como “ótimas”.
Além disso, o levantamento estima que a má qualidade do pavimento gera um desperdício anual de cerca de R$ 7,2 bilhões apenas com o consumo adicional de diesel, equivalente a aproximadamente 1,2 bilhão de litros. Esse valor poderia ser direcionado para iniciativas sustentáveis, como a aquisição de veículos elétricos, a produção de combustíveis renováveis ou projetos de reflorestamento, contribuindo para uma economia de baixo carbono.
Intermodalidade: tecnologia ajuda a operar uma matriz mais diversificada
O Plano Nacional de Logística (PNL) 2050 tem como objetivo transformar o sistema logístico brasileiro, reduzindo a dependência do transporte rodoviário e promovendo uma maior integração entre diferentes modais. Isso exige que as empresas adotem uma abordagem mais sofisticada para decidir quando utilizar caminhões, trens, hidrovias, cabotagem, portos ou aeroportos, considerando as especificidades de cada operação.
De acordo com especialistas, a escolha do modal ideal vai além do custo do frete, demandando uma análise abrangente do custo total da operação e das características de cada fluxo logístico. Rodovias, ferrovias, hidrovias, transporte aquaviário, portos e aeroportos possuem papéis distintos, que variam de acordo com fatores como volume, distância, frequência, valor da carga, perecibilidade, risco, nível de serviço e previsibilidade. Nesse contexto, a intermodalidade se apresenta como uma estratégia essencial para otimizar a logística, reduzir custos e aumentar a eficiência.
Segundo o diretor de Excelência Operacional da Ekantika Consultori, Andrey Leite, a decisão sobre o modal não deve partir do tipo de transporte, mas sim do perfil do fluxo e das necessidades de atendimento. Elementos como volume, densidade, perecibilidade e nível de serviço devem ser analisados inicialmente, seguidos pela avaliação da infraestrutura disponível, localização de origem e destino, frequência das rotas e previsibilidade da operação.
“A intermodalidade permite explorar as vantagens de cada modal: a capilaridade e flexibilidade das rodovias, a eficiência das ferrovias para grandes volumes e longas distâncias, e a competitividade das hidrovias e da cabotagem para cargas menos sensíveis ao tempo”, explica.
Nesse cenário, a tecnologia chega para aliviar a sobrecarga do modal rodoviário. Ferramentas como inteligência artificial (IA) e analytics possibilitam uma gestão logística mais integrada e eficiente, ao combinar dados históricos e em tempo real, identificar padrões, melhorar previsões e comparar cenários.
O diretor de Estratégia e IA da Infor Brasil, James Barroso, reforça que a tecnologia não deve apenas automatizar decisões, mas também ampliar a capacidade dos gestores de tomar decisões com contexto, agilidade e segurança.
A aplicação de IA e plataformas de supply chain é especialmente relevante em uma matriz logística mais integrada. Essas ferramentas permitem consolidar informações de pedidos, estoques, transporte e parceiros em uma única visão, reduzindo a fragmentação e aproximando o planejamento da execução. “Com dados confiáveis, as empresas podem planejar de forma proativa, decidindo, por exemplo, se uma carga deve ser transportada por rodovia, consolidada para ferrovia, enviada por hidrovia em uma janela específica ou mantida no modal aéreo para situações de urgência”, destaca Barroso.
Além disso, a tecnologia contribui para prever atrasos, identificar riscos e tratar exceções que realmente demandam atenção, aumentando a eficiência operacional. No entanto, como alerta Barroso, a adoção de tecnologia deve ser direcionada para resolver problemas concretos de custo, produtividade ou previsibilidade, garantindo que os investimentos gerem resultados efetivos.
A combinação entre intermodalidade e tecnologia não apenas reduz a pressão sobre o modal rodoviário, mas também promove uma logística mais sustentável, eficiente e resiliente, capaz de atender às demandas de um mercado cada vez mais dinâmico e competitivo. Essa transformação é essencial para o futuro da logística no Brasil, alinhando-se às necessidades de um sistema mais equilibrado e integrado.
Desafios da força de trabalho no transporte rodoviário
A tecnologia desempenha também um papel estratégico na redução das pressões sobre a força de trabalho no transporte rodoviário. De acordo com a pesquisa da IRU de 2025 sobre a escassez de motoristas, existem cerca de 2,9 milhões de vagas não preenchidas em 18 mercados analisados. Na Europa, o cenário é alarmante: apenas 5% dos motoristas têm 24 anos ou menos, enquanto aproximadamente 660.500 profissionais devem se aposentar até 2030, agravando ainda mais o déficit de mão de obra.
Nesse cenário, a inteligência artificial pode otimizar a capacidade existente, reduzir tarefas administrativas e aumentar a segurança dos motoristas. Tecnologias de veículos autônomos também prometem, ao longo do tempo, aliviar parte da pressão sobre a força de trabalho, especialmente em corredores específicos e ambientes controlados.
Para superar os desafios do setor, é necessário atrair mais jovens e mulheres para a profissão, ampliar o acesso a treinamentos e licenciamento, melhorar as condições nos locais de carga e descarga e tornar a carreira mais atrativa.
Rodovias inteligentes mudam os caminhos
Durante a 4ª edição do Interlog Summit, evento realizado como parte da programação da Intermodal South America 2026, o CEO da Motiva, Eduardo Camargo, explicou como a Motiva está construindo o futuro das rodovias conectadas e inteligentes”. Durante sua apresentação, Camargo destacou os projetos estratégicos da concessionária que utilizam inteligência artificial para modernizar a malha rodoviária e transformar a gestão das estradas brasileiras.
O gestor ressaltou que, até 2035, as estações físicas de pedágio serão substituídas por sistemas inteligentes. “As smart roads ganharão mais espaço, com rodovias monitoradas 100% por câmeras e detecção automática de incidentes. O cliente estará conectado à rodovia, podendo acionar os recursos da concessionária de forma integrada”, afirmou.
Entre as inovações apresentadas, destacou tecnologias como monitoramento em tempo real, manutenção preditiva e sistemas autônomos de inspeção. Essas soluções não apenas aumentam a eficiência e a segurança, mas também reforçam o compromisso com a sustentabilidade.
Segundo Camargo, o objetivo é reduzir significativamente os índices de acidentes e oferecer mais segurança e comodidade aos usuários. “A expectativa é que, com esse sistema inteligente, consigamos gerar mais segurança para os nossos clientes e transformar as rodovias em um pilar essencial para o futuro da mobilidade no Brasil”, concluiu.
Destaques dos projetos estratégicos da Motiva
Operação Inteligente
Estradas equipadas com câmeras inteligentes detectam infrações, como uso de celular ao volante e ausência do cinto de segurança. As informações são enviadas diretamente à base da polícia, que gera as multas automaticamente.
Sustentabilidade e Novos Materiais
Adoção de asfaltos ecológicos e reaproveitamento de resíduos, como cápsulas e agregados, reduzindo o uso de materiais virgens e promovendo uma construção mais sustentável.
Segurança Viária
Campanhas educativas conscientizam motoristas sobre os perigos do uso do celular, considerado uma “epidemia da distração” e principal causa de mortes no trânsito. O foco é reduzir a gravidade dos acidentes.
Segurança dos Colaboradores
Investimento em equipamentos de proteção individual (EPIs) para garantir a integridade dos trabalhadores.
Iluminação Inteligente
Sistemas de iluminação funcionam como alertas adicionais para motoristas, aumentando a segurança nas vias.
Conectividade e Infraestrutura Inteligente
Estradas conectadas com tecnologias como pesagem em movimento, sensores para manutenção preditiva e inspeções 100% digitais e autônomas.
Centro de Controle Unificado
Modelo centralizado padroniza o atendimento entre concessionárias, tornando-o mais eficiente. Atualmente, o monitoramento é feito por câmeras com operação humana, mas a meta é automatizar as respostas para incidentes no futuro.
O peso dos dados: como a tecnologia salva vidas nas rodovias
Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) revelam que o país registrou mais de 72 mil sinistros e cerca de 6 mil mortes nas rodovias federais, em 2025. Estimativas de mercado indicam que 30% desses acidentes são causados pela reação tardia ou ausência de reação dos condutores, reflexo direto de distrações e cansaço excessivo. Nesse cenário, a tecnologia surge como uma aliada para a segurança e a gestão das estradas.
Telemetria no modal rodoviário
A telemetria, que monitora em tempo real o desempenho dos veículos e o comportamento dos motoristas, tem se mostrado uma ferramenta eficaz na redução de acidentes. Um estudo global da Geotab revelou que frotas monitoradas por sistemas de telemetria conseguem reduzir em até 40% o número de acidentes. Quando combinada com videotelemetria — câmeras inteligentes que detectam distrações e emitem alertas sonoros —, a eficácia é ainda maior: empresas relatam quedas de até 86% nos acidentes graves.
No Brasil, a adoção dessas tecnologias já apresenta resultados expressivos. A MBRF, gigante do setor alimentício, conseguiu reduzir em 73% a taxa de frequência de acidentes por milhão de quilômetros rodados após implementar telemetria em 100% de sua frota e videotelemetria em 90% dos veículos.
Outras plataformas como a Cobli apontam que o uso de celular ao volante, responsável por 60% dos acidentes, pode ser mitigado em até 80% logo no primeiro mês de uso de alertas preventivos na cabine.
Mais segurança e eficiência
As novidades no campo da telemetria vão além do monitoramento básico. Tecnologias avançadas estão transformando o modal rodoviário em um sistema mais seguro, eficiente e sustentável. Entre as inovações mais recentes, destacam-se:
- Monitoramento em tempo real: Sensores e câmeras inteligentes detectam infrações, como uso de celular e ausência de cinto de segurança, enviando dados diretamente às autoridades.
- Manutenção preditiva: Sistemas que analisam dados históricos e atuais dos veículos para prever falhas mecânicas, reduzindo custos e evitando paradas inesperadas.
- Videotelemetria: Equipamentos que monitoram o comportamento dos motoristas e as condições das estradas, emitindo alertas em tempo real para evitar acidentes.
- Sustentabilidade: Uso de asfaltos ecológicos e reaproveitamento de resíduos, como cápsulas e agregados, para reduzir o impacto ambiental.
- Conectividade e infraestrutura inteligente: Estradas equipadas com tecnologias como pesagem em movimento e sensores para inspeções autônomas e digitais.
Descarbonização no Transporte: Inovações e Desafios
A agenda ESG (Ambiental, Social e Governança) no modal rodoviário de cargas transformou-se em uma condição de sobrevivência de mercado e um pré-requisito para a homologação junto a grandes embarcadores. Essa cobrança transformou a sustentabilidade corporativa, que antes operava em nível institucional, em um filtro real de competitividade diária nas estradas.
A realidade atual do setor revela um cenário de transição com ritmos desequilibrados. O inédito Panorama ESG do Transporte Rodoviário em São Paulo, avaliado sob os critérios da norma técnica ABNT PR 2030, apontou que a maturidade média do setor como um todo ainda se encontra no estágio “Não Integrado”. Isso significa que a maioria das transportadoras já adota ações sustentáveis isoladas, mas ainda precisa conectá-las formalmente à estratégia de gestão.
O destaque positivo fica por conta do transporte de cargas, que lidera os índices de maturidade frente ao transporte de passageiros exatamente pelo estímulo e exigência da cadeia de suprimentos corporativa.
Entre as principais novidades regulatórias e de governança, o grande marco é a criação do Selo ESG Cargas pela ANTT, instituído por meio da Resolução nº 6.086. Esse programa de adesão voluntária funciona como uma certificação oficial de reputação para transportadores inscritos no RNTRC, avaliando formalmente critérios de conformidade, segurança e eficiência. Do ponto de vista de investimentos estruturais, agências reguladoras e concessionárias já atrelam novos aportes em infraestrutura rodoviária a metas de sustentabilidade, visando modernizar as rodovias nacionais.
No pilar ambiental, o foco principal está na descarbonização e na eficiência energética. Embora a eletrificação completa de frotas pesadas de longa distância ainda caminhe a passos lentos, soluções intermediárias ganharam força extrema.
Destacam-se os projetos logísticos que integram o uso de caminhões movidos a biometano para curtas distâncias com o escoamento multimodal por ferrovias, reduzindo as emissões de carbono em até 90% em determinados corredores de exportação.
Em frotas urbanas, a eletrificação gradual avança rapidamente para entregas de última milha (last mile). Adicionalmente, softwares de roteirização inteligente e ferramentas digitais de telemetria ajudam a monitorar o consumo exato de combustível por veículo e a mitigar o desperdício.
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