Durante décadas, uma das perguntas mais importantes da indústria foi relativamente simples: onde é mais barato produzir? Empresas buscaram fornecedores mais eficientes, transferiram etapas produtivas para países com custos menores e construíram cadeias que atravessavam continentes antes de entregar um produto ao consumidor final.

Essa lógica não desapareceu. Mas ganhou uma concorrente poderosa. Hoje, outra pergunta começa a orientar decisões de investimento: onde é seguro produzir?

A diferença entre as duas perguntas ajuda a compreender uma das transformações mais importantes da economia mundial. Fábricas, matérias-primas, tecnologias e fornecedores deixaram de ser vistos apenas como elementos de uma cadeia produtiva. Tornaram-se ativos estratégicos na disputa entre países.

Os números ajudam a dimensionar a mudança. Um novo indicador desenvolvido por economistas da Organização Mundial do Comércio (OMC) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que a atividade global de política comercial atingiu um recorde no início de 2026. Entre janeiro e maio, ficou quase duas vezes acima do nível registrado em 2024. Mais importante: são justamente as medidas restritivas, como tarifas, proibições e limitações às importações, que mais cresceram. Subsídios e outras políticas de apoio à produção também avançaram.

Isso significa que governos estão interferindo cada vez mais nas decisões que determinam onde e como o mundo produz.

Da eficiência para a segurança

A globalização das últimas décadas produziu cadeias extraordinariamente eficientes, mas também criou dependências que só ficaram evidentes quando começaram as grandes rupturas.

A pandemia revelou o risco da concentração de fornecedores. A guerra na Ucrânia demonstrou como energia, alimentos e fertilizantes poderiam rapidamente se transformar em instrumentos de pressão. A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China levou semicondutores, inteligência artificial e equipamentos de fabricação de chips para o centro da competição internacional.

Agora, minerais críticos fazem parte da mesma equação.

O resultado é uma mudança importante na estratégia econômica das grandes potências. Conceitos como reshoring, nearshoring, friendshoring e de-risking entraram no vocabulário de governos e empresas.

Embora diferentes, todos partem de uma preocupação semelhante: reduzir dependências consideradas perigosas.

Uma fábrica instalada milhares de quilômetros distante deixou de ser avaliada apenas por produtividade e custo. Importa saber em qual país ela está, quais governos controlam as rotas que abastecem aquela unidade, de onde vêm seus componentes e se uma crise diplomática pode interromper sua produção.

Para uma empresa, isso é gestão de riscos. Para um governo, tornou-se questão de segurança econômica.

O pequeno componente capaz de parar uma grande fábrica

Poucos exemplos mostram essa transformação tão claramente quanto as terras raras. Apesar do nome, não estamos falando simplesmente de recursos naturais escassos. O verdadeiro poder está na capacidade de processá-los e transformá-los nos componentes utilizados pela indústria.

Em 2024, a China respondia por aproximadamente 60% da mineração mundial das terras raras utilizadas em ímãs. Quando se observa o refino, entretanto, sua participação chegava a 91%. Na fabricação de ímãs permanentes sinterizados, alcançava impressionantes 94%. Esses ímãs aparecem em motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, automóveis, robótica, sistemas industriais e tecnologias de defesa.

Em 2025, quando Pequim introduziu controles sobre a exportação de determinados elementos de terras raras e produtos relacionados, fabricantes de automóveis nos Estados Unidos, Europa e outras regiões passaram a enfrentar dificuldades de abastecimento. Algumas empresas chegaram a reduzir a utilização de suas fábricas ou interromper temporariamente operações.

É uma demonstração quase perfeita do novo poder das cadeias produtivas. Uma quantidade relativamente pequena de determinado insumo pode sustentar bilhões de dólares em produção industrial.

A Agência Internacional de Energia estima que a implementação integral de determinadas restrições chinesas sobre terras raras poderia colocar em risco cerca de US$ 6,5 trilhões anuais de produção fora da China, considerando setores como automotivo, tecnologia, defesa e energia.

Não surpreende que governos estejam dispostos a gastar bilhões para reduzir essa dependência.

A corrida para reconstruir cadeias

Os Estados Unidos oferecem um exemplo particularmente claro. Somente em agosto, Washington anunciou US$ 500 milhões para projetos relacionados ao processamento de minerais críticos, fabricação de baterias e reciclagem. Dias antes, haviam sido divulgados mais de US$ 2 bilhões em projetos ligados à mineração e cadeias relacionadas, além de investimentos em formação de profissionais especializados.

O polissilício oferece outro exemplo. Essencial para a indústria solar e relevante também para semicondutores, tornou-se alvo de uma política norte-americana que combina preço mínimo para importações, tarifa adicional sobre determinados produtos derivados e incentivos para empresas que construam ou ampliem capacidade produtiva dentro dos Estados Unidos.

A mensagem é bastante clara. Não basta comprar um produto estratégico no mercado internacional. Grandes economias querem controlar uma parcela maior das cadeias que consideram essenciais.

O problema é que reconstruir cadeias produtivas não acontece rapidamente. Mineração exige investimentos de longo prazo. Refinarias demandam tecnologia e conhecimento especializado. Fábricas precisam de infraestrutura, energia, fornecedores e mão de obra qualificada.

Há também um custo. A Agência Internacional de Energia calcula que novos projetos de refino fora dos países que atualmente dominam determinados mercados podem apresentar custos de capital entre 20% e mais de 150% superiores. Os custos operacionais são, em média, aproximadamente 50% maiores.

Em outras palavras, o mundo está começando a aceitar pagar mais por cadeias consideradas mais seguras.Isso representa uma mudança profunda na lógica empresarial das últimas décadas.

A geopolítica começa a escolher onde estarão as próximas fábricas

Os fluxos de investimento já ajudam a perceber essa transformação. Segundo a UNCTAD, o investimento estrangeiro direto global alcançou US$ 1,6 trilhão em 2025, crescimento de 6% após dois anos de queda. Mas o dado mais interessante está na composição desses investimentos.

Os 20 principais destinos receberam mais de 80% do investimento estrangeiro mundial. E setores considerados estratégicos passaram a responder por 44% do valor dos novos projetos anunciados, contra apenas 16% em 2020. Infraestrutura digital relacionada à inteligência artificial aparece entre os grandes motores dessa concentração.

Capital continua procurando retorno. Mas governos e empresas também estão procurando segurança, acesso a recursos, energia, tecnologia e estabilidade. Isso ajuda a explicar por que a disputa pelas cadeias produtivas ultrapassou a relação entre Estados Unidos e China.

Europa, Índia, Japão, Coreia do Sul, Austrália, México, Indonésia e diversos outros países procuram posicionar-se nas novas cadeias de baterias, semicondutores, minerais críticos, medicamentos, energia, alimentos e tecnologia.

Estamos entrando em uma competição pela localização da produção. E é justamente aqui que o debate se torna especialmente importante para o Brasil.

O Brasil pode ser fornecedor ou plataforma industrial

Poucos países reúnem tantas características potencialmente interessantes nesse novo ambiente. O Brasil possui escala de mercado, produção de alimentos, disponibilidade de energia renovável, recursos minerais, base industrial diversificada e posição relevante em setores como agronegócio, alimentos, papel e celulose, mineração, siderurgia, máquinas e equipamentos.

Também está geograficamente distante das principais zonas de conflito militar e mantém relações econômicas relevantes com Estados Unidos, Europa e China. Isso cria oportunidades. Mas existe uma diferença enorme entre possuir recursos estratégicos e controlar cadeias estratégicas.

O caso das terras raras é novamente ilustrativo. O maior valor econômico não necessariamente fica com quem possui o minério, mas com quem domina processamento, tecnologia, componentes e aplicações industriais.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a outras cadeias.

Exportar lítio é diferente de produzir materiais para baterias. Produzir alimentos é diferente de controlar tecnologias, equipamentos e sistemas associados à agroindústria. Possuir energia limpa é diferente de utilizá-la como vantagem para atrair data centers e indústrias intensivas em eletricidade. Produzir celulose é diferente de desenvolver uma cadeia sofisticada de biomateriais e produtos de maior valor agregado.

A oportunidade brasileira, portanto, não deveria ser analisada apenas pela pergunta “o que podemos exportar?”. A pergunta mais interessante é: quais etapas das cadeias globais que estão sendo reorganizadas podemos trazer para o Brasil?

O fornecedor também entrou no mapa geopolítico

Essa transformação não interessa apenas às grandes multinacionais. Ela começa a chegar às decisões cotidianas de compras, logística e supply chain.

Um diretor de compras pode descobrir que o fornecedor mais barato é também aquele localizado na cadeia geopoliticamente mais vulnerável. Um gestor industrial pode perceber que determinado componente aparentemente irrelevante depende quase integralmente de um único país. Uma empresa exportadora pode descobrir que sua vantagem competitiva muda completamente depois da introdução de uma tarifa.

Isso altera a própria definição de eficiência. Ter dois fornecedores em países diferentes pode custar mais do que concentrar todas as compras naquele que oferece o menor preço. Manter estoques estratégicos aumenta capital imobilizado. Desenvolver fornecedores alternativos exige tempo e investimento.

Ainda assim, esses custos podem funcionar como uma espécie de seguro contra interrupções. O desafio para as empresas será descobrir quanto vale essa resiliência.

A próxima vantagem competitiva pode estar fora da fábrica

Durante muito tempo, empresas industriais buscaram produtividade olhando principalmente para dentro de suas próprias operações. A nova corrida pelas cadeias produtivas exige olhar também para fora.

Quem fornece os componentes críticos? De onde vêm as matérias-primas? Existem fornecedores alternativos? Quais países controlam tecnologias essenciais? Que rotas logísticas concentram riscos? Uma mudança regulatória em Washington, Pequim ou Bruxelas pode alterar a competitividade do produto?

Essas perguntas estão deixando de ser exclusividade dos departamentos de comércio exterior. Precisam chegar às áreas de compras, logística, inovação, investimentos e planejamento estratégico.

Porque a globalização não terminou. Tampouco parece provável que todas as fábricas retornem aos seus países de origem. O que está acontecendo é mais complexo.

A globalização está sendo reorganizada em torno de uma nova combinação entre eficiência econômica e segurança estratégica.

Nesse ambiente, países tentarão controlar tecnologias críticas. Governos disputarão investimentos industriais. Empresas diversificarão fornecedores. Minerais aparentemente desconhecidos ganharão importância estratégica. E fábricas poderão ser atraídas não apenas pelo menor custo, mas pela segurança que determinada localização oferece.

Para a indústria brasileira, essa transformação traz riscos evidentes, mas também uma oportunidade que talvez apareça apenas uma vez em uma geração.

A questão é saber se o Brasil permanecerá principalmente como fornecedor das matérias-primas utilizadas nessa nova economia ou se conseguirá capturar também fábricas, tecnologia, processamento e etapas de maior valor agregado das cadeias que o mundo está começando a reconstruir.

A corrida já começou.