A logística do agronegócio brasileiro passa por uma transformação silenciosa, porém estratégica: o fortalecimento dos aeroportos regionais.

Muito além de simples estruturas de transporte, esses terminais vêm assumindo um papel essencial na conexão entre o interior produtivo e os grandes centros urbanos, portos e mercados globais, impulsionando o desenvolvimento regional, a competitividade e a eficiência das cadeias agroindustriais.

Quer saber mais sobre esse tema tão importante? Então, confira abaixo nossa entrevista com Daniel de Paula Urbim, administrador de empresas e orientador educacional do curso Técnico em Logística no Senac EAD.

O crescimento dos aeroportos regionais na transformação da logística do agronegócio

Daniel Urbim explica que o crescimento dos aeroportos regionais está transformando a logística do agronegócio e conectando o interior agroindustrial aos grandes centros urbanos e portuários devido à relação estratégica.

“Eles atuam como portões de entrada e saída para as regiões produtoras do Brasil, impulsionando o desenvolvimento econômico local e a eficiência logística do setor”, observa. 

Esta importância, segundo ele, se dá primeiramente pela geração de conectividade e novos negócios, facilitando a mobilidade de empresários, investidores e técnicos do setor agropecuário.

“O impacto se dá também no desenvolvimento regional, a partir de investimentos em infraestrutura aeroportuária destas regiões do interior do país”, acrescenta.

O escoamento de produtos de alto valor agregado como insumos biológicos, peças de reposição urgentes para os maquinários agrícolas, sementes especiais e até de alguns produtos perecíveis também é outro fator de extrema importância.

“Outro ponto estratégico está relacionado à aviação agrícola, vital para a pulverização de fertilizantes e defensivos em grandes áreas, combatendo pragas e doenças e aumentando a produtividade e a segurança alimentar”, cita.

Conforme Urbim, a aviação regional no Brasil se consolida como componente estratégico da logística nacional, conectando interiores agroindustriais aos grandes centros urbanos e portuários.

“É possível reduzir custos logísticos, aumentar a competitividade e fomentar o desenvolvimento econômico regional a partir da descentralização, reduzindo a dependência dos grandes centros  metropolitanos”, acrescenta.

A contribuição da aviação regional para a redução de custos logísticos e aumento da competitividade

Na opinião do especialista, a contribuição da aviação regional para a redução de custos logísticos e aumento da competitividade do agronegócio brasileiro se dá a partir do papel estratégico e de ações necessárias que buscam garantir o sucesso no atendimento destas variáveis.

“Somos um país com dimensões continentais, onde a produção agrícola está concentrada no interior, distante dos grandes centros urbanos e portos, necessitando reduzir distâncias, com à otimização de fluxos logísticos e ampliação da rentabilidade do agronegócio brasileiro”, analisa.

Estas ações, conforme Urbim, estão relacionadas à aviação regional e a logística do agronegócio, não com o transporte da produção das commodities, mas permitindo deslocamento rápido da mão de obra de apoio.

Investimentos em infraestrutura e políticas públicas

Para melhor compreensão sobre os investimentos e políticas públicas que têm impulsionado a expansão dos aeroportos regionais, Urbim afirma que é preciso estar atento à relação entre os programas, órgãos envolvidos, tipo de investimentos, abrangência, ações e objetivos. 

Veja a tabela a seguir:

Programa/ PolíticaÓrgão responsávelTipo de investimentoAbrangência territorialPrincipais açõesRelação direta com o agronegócio
Programa AmpliARMinistério de Portos e Aeroportos (MPor)Privado (com incentivos regulatórios)Nacional, com foco em Amazônia Legal e NordesteConcessão simplificada de aeroportos regionais, modernização de pistas e terminaisMelhora a conectividade de polos agrícolas remotos, reduz tempo de deslocamento de gestores, técnicos e insumos estratégicos
Programa de Aviação Regional (PAR)Governo Federal / SACPúblicoNacionalConstrução, reforma e ampliação de aeroportos regionaisIntegra áreas produtoras ao sistema logístico nacional e reduz isolamento de regiões agroindustriais
Investimentos federais 2026-2027MPor/ InfraeroPúblico (aproximadamente igual a R$ 1,8 bilhão)31 aeroportos em 16 estadosAmpliação de pistas, modenização de terminais e sistemas de navegaçãoFacilita acesso a mercados consumidores, centros financeiros e portos exportadores
Plano Aeroviário Nacional (PAN)Ministério de Portos e AeroportosPlanejamento estratégicoNacionalDefinição de aeroportos prioritários para investimentoPrioriza regiões com potencial econômico e logístico, incluindo áreas do agronegócio
Concessões aeroportuáriasANAC/ Governo FederalPrivadoNacionalGestão privada, eficiência operacional e expansão da capacidadeReduz gargalos, melhora regularidade de voos e fortalece polos agroindustriais
Infraero – modernização regionalInfraeroPúblicoInterior do BrasilObras de infraestrutura e segurança operacionalGarante operação contínua em cidades médias ligadas à produção agropecuária

“O quadro acima evidencia as políticas públicas/privadas, que podemos verificar que não são exclusivas do agronegócio, mas que irão gerar impactos logísticos positivos, que são fundamentais para a eficiência das cadeias agroindustriais, competitividade internacional e redução de desigualdades regionais”, ressalta.

Cases de aeroportos regionais que se tornaram hubs de desenvolvimento econômico e social em cidades médias e pequenas

Conforme Daniel Urbim, diferentes terminais regionais deixaram de representar apenas pontos de embarque e desembarque e tornaram-se hubs regionais de integração produtiva com investimentos em infraestrutura, aliados a políticas públicas adequadas e parcerias com a iniciativa privada.

Entre os destaques, o tutor do Senac cita o Aeroporto Regional de Maringá, no Paraná, principal case de sucesso no Sul do Brasil.

“A partir da produção agroindustrial, passou por sucessivas ampliações de pista e terminal, permitindo a operação de aeronaves maiores e o aumento da frequência de voos comerciais”, explica.

“Gerou a integração da agroindústria local com São Paulo e outros centros e atração de investimentos nos setores de comércio, serviços e logística, fortalecendo cadeias produtivas ligadas ao agronegócio”, completa.

Outro exemplo citado por Urbim é o de Chapecó, em Santa Catarina.

“Por ser uma região produtora de carnes, tornou-se essencial para a logística corporativa das grandes empresas do setor agroalimentar”, destaca.

O Aeroporto de Navegantes, também em Santa Catarina,  é citado por Urbim devido a localização estratégica próxima a polos industriais, portos e corredores logísticos.

“Ele permitiu o aumento do fluxo de passageiros e integração com atividades logísticas complementares, apoiando cadeias produtivas industriais e agroindustriais e fortalecendo a conectividade com hubs nacionais”.

Outro case de sucesso está no município de Sinop, na região Centro-Oeste.

“Por ter uma localização geográfica nas principais fronteiras agrícolas do país e com o crescimento acelerado da produção de grãos, foi possível impulsionar a demanda por transporte aéreo, especialmente para deslocamento de produtores, executivos, técnicos e investidores”, observa.

O Aeroporto de Petrolina do São Francisco fortaleceu a integração regional entre Pernambuco e Bahia.

“Com infraestrutura para a logística de frutas de maior valor agregado e facilitando a mobilidade de profissionais e investidores, ampliou a visibilidade nacional e internacional da produção local e estimulou o crescimento econômico e social da região”, conclui.

Ao integrar produção, pessoas e investimentos, os aeroportos regionais se consolidam como peças-chave para um agronegócio mais competitivo, conectado e sustentável no Brasil.