A descarbonização do transporte marítimo deixou de ser uma tendência futura e passou a ser uma necessidade urgente diante das mudanças climáticas e das metas globais de redução de emissões.

Com forte impacto no comércio internacional, o setor avança por meio de novas regulamentações, combustíveis alternativos, eficiência energética e investimentos em infraestrutura, buscando equilibrar desenvolvimento econômico e responsabilidade ambiental.

Para saber mais, confira neste conteúdo o bate-papo que tivemos com Vanessa Alves Gonçalves, doutora em Engenharia e Tecnologia dos Materiais, e tutora do Curso Técnico em Meio Ambiente do Senac EAD.

Os avanços do setor marítimo na descarbonização e principais metas globais

Na opinião de Vanessa Alves Gonçalves, a descarbonização é uma prática importante na diminuição dos gases de efeito estufa (GEE).Uma das soluções viáveis para o uso de combustíveis mais sustentáveis, segundo ela, é a redução de taxas a partir de incentivos fiscais.

“Em relação às alternativas de combustíveis disponíveis, o gás natural liquefeito (GNL) se destaca como principal substituto das fontes de combustíveis fósseis, causando menor impacto ambiental negativo, mesmo não sendo a única a opção, pois há também o metanol verde, a amônia, entre outros”, afirma.

“Também se reduz o uso de combustíveis fósseis por meio de eficiência operacional com otimização de rotas, modelagem de navios e gestão de combustíveis que reduzem a emissão de CO2”, exemplifica.

Ela conta que a Organização Marítima Internacional (IMO) realiza um papel importante na regulamentação das atividades do transporte marítimo, como o controle das emissões prejudiciais ao meio ambiente. 

“A meta global adotada pelo transporte marítimo internacional para a redução de emissões de GEE é de pelo menos 50% até 2050 e inclui as diretrizes da IMO”, diz.

Combustíveis alternativos com potencial para transformar o transporte marítimo

Vanessa Gonçalves ressalta que o Gás Natural Liquefeito (GNL) tem o maior potencial como combustível de transição, pois reduz emissões de carbono, NOX e particulados em comparação ao combustível utilizado atualmente.

“A sua vantagem se traduz na infraestrutura disponível já existente em muitos portos, além de uma melhoria contínua com GNL renovável, como bio-GNL ou e-GNL, produzido com energia renovável e captura de carbono”, observa.

Segundo a especialista, o hidrogênio verde também tem alto potencial de uso como combustível, pois possui zero emissões diretas em sua utilização.

“Entretanto, ele possui necessidade de uma infraestrutura de armazenamento, além de ser considerada uma escala de produção suficiente para abastecimento global tornando seu custo alto ainda”, completa.

Já a amônia (NH3) tem também alto potencial de uso, sendo um dos mais promissores na descarbonização marítima por não emitir carbono em sua queima adequada.

“A vantagem está na alta densidade de energia por volume produzido comparada ao hidrogênio. O armazenamento pode ser as infraestruturas utilizadas atualmente, mas de forma adaptada. Em relação aos desafios encontrados, estão as emissões de NOX e a toxicidade na combustão”, analisa.

Eletrificação de embarcações, eficiência energética e digitalização de rotas

Conforme a tutora do Senac EAD, a eletrificação de embarcações, aliada à eficiência energética, atua de forma integrada para reduzir o consumo de combustível e as emissões no setor marítimo.

“Navios com propulsão elétrica, especialmente aqueles que utilizam células de combustível ou motores elétricos impulsionados por baterias e sistemas de energia, podem operar com menor ou zero emissão local, dependendo da fonte de energia elétrica”, detalha.

“Há navios operantes com sistema de propulsão híbrida que aproveitam fontes de energia renovável, como o vento e a energia solar em seu funcionamento, e possuem a vantagem de apresentar a autonomia quando houver a necessidade de operar à óleo”, exemplifica.

Mesmo quando utilizam combustíveis fósseis, ela explica que a eletrificação possibilita operações mais suaves e eficientes, com motores funcionando em regimes ideais, gestão inteligente de demanda de energia, o que resulta em economias significativas de consumo.

“Além disso, a eletrificação facilita a integração com energias renováveis a bordo ou em hubs portuários, contribuindo para reduzir a intensidade de carbono ao longo da vida útil da embarcação”.

Desafios regulatórios e investimentos em infraestrutura portuária

Uma série de desafios regulatórios tem movimentado o dia a dia do transporte marítimo. Entre os principais, Gonçalves cita:

“A implementação e o acompanhamento de padrões de emissões cada vez mais rigorosos, como as listas de implementação de combustíveis com menor teor de enxofre, metas de redução de CO₂ para frotas, e o desenvolvimento de regras na segurança e certificações adequadas no transporte de hidrogênio e amônia”.

Além disso, ela lembra da necessidade de alinhamento entre normas internacionais e requisitos regionais ou nacionais.

“A transição para opções de zero emissões também depende de portarias que incentivem inovação, financiamento e acessibilidade a tecnologias como baterias de alta densidade, células de combustível e infraestrutura de abastecimento de hidrogênio e amônia”, afirma.

Já em relação aos investimentos em infraestrutura portuária, a entrevistada destaca que são necessários abastecimento especializado e armazenamento seguro de combustíveis limpos, redes de abastecimento de energia, e infraestrutura de carregamento para plataformas de células de combustível e baterias.

Ao combinar regulação, inovação tecnológica e investimentos estratégicos, a descarbonização marítima se consolida como um caminho essencial para tornar o transporte naval mais limpo, eficiente e alinhado aos compromissos climáticos globais.