Entre tantos desafios no setor de logística e transporte do Brasil, um dos pontos de atenção atualmente é a escassez de mão de obra. Como atrair ou criar público qualificado para compor as vagas de motoristas no país?
O segundo dia da Intermodal South America, o maior evento do setor de logística das Américas trouxe essa discussão. Durante a 4ª edição do Interlog Summit, o painel: Superando a Crise de Mão de Obra: O Novo Playbook para uma Logística e Transporte Inclusivos e de Alta Performance, moderado pelo presidente da Associação Brasileira de Logística (Abralog), Pedro Moreira, debateu estratégias para tornar o setor mais eficiente e inclusivo diante dos atuais desafios do mercado.
Ele também destacou a relevância da Intermodal para o setor logístico:
“Sendo o maior evento das Américas e um dos mais relevantes do mundo, a Intermodal reúne um ecossistema sólido, com 50.000 visitantes e mais de 500 marcas expositoras. Uma excelente plataforma estratégica que promove discussões essenciais para a sustentabilidade do setor. Além de conectar empresas e profissionais, lidera iniciativas importantes para o mercado, como a capacitação de talentos e a superação de barreiras operacionais”.
E acrescentou: “A Intermodal vai além de ser uma feira de negócios; ela desempenha uma função social indispensável, contribuindo para a continuidade e o fortalecimento do setor logístico em um cenário global cada vez mais desafiador”, afirmou Moreira.
Participaram do encontro a gerente executiva de desenvolvimento profissional do Sest Senat, Roberta Rodrigues Diniz; o diretor de impacto growth do iFood, Pedro Somma; a diretora de operações fulfillment do Mercado Livre, Regina Rufino e o diretor da Martin Brower e do Instituto Foodservice Brasil (IFB), Alessandro Rios.
Dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e da Federação Interestadual dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários (FITRANS) revelam que o Brasil enfrenta um déficit superior a 120 mil motoristas profissionais — um gap que cresce anualmente. Outro fator crítico é a idade média desses profissionais, que hoje está entre 48 e 54 anos. Segundo o presidente da Abralog, a baixa adesão de jovens à carreira exige estratégias urgentes para garantir a sustentabilidade do setor.
Atração, retenção e tecnologia
Como trabalhar esse tripé? Os especialistas destacaram que investir em qualificação, benefícios e tecnologia de segurança são pontos estratégicos que precisam de investimento interno.
Alessandro alertou também sobre a importância da valorização dos profissionais e reforçou que a tecnologia ainda não substitui o capital humano. “Com mais de 50 mil vagas em aberto e em ascensão, o desafio é atrair as novas gerações. Precisamos formar motoristas dentro das empresas e transformar essa profissão em uma oportunidade real de transição de carreira nas instituições”, afirmou.
Diante dessa realidade, o executivo ressaltou que as empresas devem assumir o protagonismo na formação de seus quadros, oferecendo desde capacitação técnica até o financiamento da CNH para motoristas e operadores. Alessandro explica que o sucesso dessas iniciativas depende de uma estratégia integrada: começa no recrutamento — com o empoderamento do RH e da gestão operacional — e se estende à experiência diária do colaborador.
“Na IFB, implementamos programas de incentivo focados na produtividade e performance para os profissionais de armazém e transporte. O objetivo é permitir que nossos colaboradores alcancem uma remuneração adicional ao atingirem metas e objetivos específicos, valorizando diretamente quem está na operação”, exemplifica o gestor.
Além disso, investimos também em programas de capacitação. “Criamos uma parceria com universidades e faculdades para atrair jovens talentos em diversas áreas da nossa organização. Especificamente na área de transportes há uma iniciativa que consiste na formação interna. É um convite para um projeto de carreira dentro da empresa. Esse programa é feito em parceria com a FABET – Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte”.
Para Pedro Somma , a produtividade na logística exige tecnologia e dignidade. O iFood exemplifica isso investindo em rotas inteligentes e bicicletas elétricas, focando na redução da espera dos entregadores. “Essa estratégia busca tornar a plataforma uma opção viável e atrativa frente ao emprego tradicional, focando em flexibilidade e melhores condições operacionais”, destaca.
A tecnologia foi outro ponto de convergência entre os especialistas. Regina Rufino, do Mercado Livre, destacou a metodologia Lean como uma abordagem indispensável para agregar valor à logística e ao supply chain. Ela defendeu o uso da metodologia Lean como uma abordagem que pode agregar valor à logística e ao supply chain, ajudando a melhorar processos e aumentar a eficiência.
Diversidade e inclusão
Diante dos projetos apresentados que tratam de inovação para o setor logística, Pedro Moreira destacou que ampliar a presença feminina é uma prioridade estratégica. Além disso, pontuou que a formação e a capacitação voltadas para pessoas com deficiência (PCD) não é apenas uma questão de inclusão, mas uma oportunidade para abrir as portas de um novo mercado de talentos.
A parceria realizada entre o Mercado Livre e o Sest Senat que capacitou 900 alunos PCD é um exemplo positivo. “E, por falar em sustentabilidade, o Sest Senat apresentou seu programa de formação de motoristas profissionais, que já capacitou mais de 6 mil pessoas, incluindo 3 mil mulheres, promovendo diversidade e ampliando a oferta de mão de obra qualificada”, afirma Roberta.
Com o objetivo de impulsionar iniciativas de impacto social e construir um futuro mais sustentável e eficiente para a logística no Brasil, a Abralog lançou, durante a Intermodal, o Movimento Logística Plural – Diversidade que Move a Logística. O projeto está estruturado em quatro pilares fundamentais: acesso e inclusão; desenvolvimento e liderança; cultura e ambiente; e a elaboração de dados e relatórios anuais com indicadores de diversidade.
“Lançamos o Movimento Logística Plural para abraçar todas as dimensões da diversidade: gênero, idade, PCDs, mulheres e a comunidade LGBTQIA+. Acreditamos que aglutinar esses grupos é essencial para mitigar a escassez de talentos que enfrentamos hoje. O objetivo é trabalhar pessoas e iniciativas por meio de playbooks, boas práticas e indicadores, utilizando inclusive benchmarks internacionais de mercados como Europa e Estados Unidos”, explica o presidente da associação.
E complementa: “Afinal, ninguém ganha o jogo sozinho: este não é um projeto exclusivo da Abralog, mas um movimento para o mercado. Estamos abertos a parcerias com outras entidades para tornar a cadeia de suprimentos cada vez mais inclusiva e forte”.
Escala 5 x 2
O encontro também deu palco a um tema central no debate nacional: a redução da jornada de trabalho. O presidente da Abralog contextualizou que as nações que implementaram essa redução passaram antes por uma revolução de produtividade e automação, refletida em um PIB per capita elevado — patamar que o Brasil ainda busca atingir.
Para Alessandro, o tema é complexo demais para ser decidido “em uma canetada”. “Nossos armazéns já operam em escala 5×2, mas a operação logística como um todo ainda não comporta essa mudança por questões de viabilidade. Implementar isso exige um trabalho de base em produtividade e revisão de benefícios, especialmente considerando que o absenteísmo na logística (entre 8% e 12%) já supera a média nacional”, pontuou.
Pedro Somma, do iFood, complementou que a transformação nas relações de trabalho é um dos grandes vetores da nova economia. “Há uma série de atributos nessa nova forma de trabalhar que atrai talentos. O debate central é como nos tornarmos mais capazes de oferecer soluções interessantes para atrair os profissionais qualificados de que tanto precisamos” finaliza.
A Intermodal, o maior evento das Américas – e o segundo do mundo – em transporte de carga, logística, intralogística e comércio exterior, acontece até o dia 16 de abril, no Distrito Anhembi, em São Paulo. Acompanhe pelo Modal Connection a cobertura completa da feira!