Nesta semana, o São Paulo Expo aconteceu a 17ª edição da Brazil Windpower, o principal encontro do setor eólico da América Latina. O macrotema deste ano fala em reunir todas as formas de geração de energia limpa e segura. Em 2026, a palavra decisiva dessa frase é a segunda. 

O mundo atravessa o pior choque energético em décadas. O Brasil, enquanto isso, desliga usinas porque não tem como escoar o que produz. Esse paradoxo diz muito sobre o lugar que o país pode ocupar na nova geopolítica da energia — e sobre o quanto ainda falta para ocupá-lo. 

Ormuz lembrou o mundo de que energia é arma 

Desde o início do ano, a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã transformou o Estreito de Ormuz em instrumento de pressão. Por ali passa cerca de um quinto do petróleo transportado no planeta. Com a navegação restringida, o barril chegou a subir mais de 50%, e nem o cessar-fogo de abril bastou para normalizar o tráfego de petroleiros. 

O dado mais importante, porém, não é o preço. É a lição: quem controla um gargalo controla a economia dos outros. Analistas da FGV Energia alertam que o bloqueio seguirá sendo usado como ferramenta de guerra, e um boletim de conjuntura do Mackenzie classificou o episódio como o maior choque energético deste século. 

Para as empresas, isso muda a pergunta. Já não basta saber quanto custa a energia. É preciso saber de onde ela vem, por qual rota passa e quem pode interrompê-la. 

O ativo que o Brasil tem e o mundo procura 

Nesse cenário, a matriz elétrica brasileira deixa de ser apenas um selo verde e vira ativo de segurança. Segundo o Ministério de Minas e Energia, as renováveis respondiam por 87,2% da capacidade instalada ao fim de 2025. Só a eólica soma cerca de 35 GW, em mais de mil usinas. Para acender a luz, o Brasil não depende de nenhum estreito. 

É daí que nasce o conceito de powershoring: levar produção e investimento para onde há energia limpa, barata e estável. Os data centers são o exemplo mais visível — projetos já anunciados no Pecém, no Ceará, serão abastecidos por geração renovável própria. Mas a lógica vale também para aço verde, fertilizantes, hidrogênio, química e qualquer indústria intensiva em energia que precise provar sua descarbonização a clientes exigentes. 

O nearshoring aproximou fábricas dos mercados consumidores. O friendshoring as levou para países aliados. O powershoring as leva para onde a energia é segura. Nessa terceira onda, o Brasil larga na frente. 

Sobra energia, falta estratégia 

O problema é que o país ainda não sabe o que fazer com essa vantagem. Usinas eólicas e solares do Nordeste vêm sendo obrigadas a reduzir a geração porque a rede não comporta o que produzem – o chamado curtailment. Uma única geradora, a Qair Brasil, contabilizou prejuízo de R$ 190 milhões com essas restrições até agosto deste ano. A região produz a maior parte da energia renovável do país, mas não consome tudo, e a transmissão não acompanhou. 

Do ponto de vista geopolítico, o quadro é quase absurdo. Enquanto Europa e Ásia pagam caro por energia que atravessa zonas de guerra, o Brasil desperdiça a que tem em casa. 

O próprio setor elétrico percebeu o descompasso. Um levantamento do Intercept Brasil e da Mongabay mostrou que 65% dos pedidos de conexão de data centers à rede básica partiram de empresas de energia renovável — geradoras tentando criar a demanda que falta. É uma resposta inteligente, mas isolada. Iniciativas de empresa não substituem estratégia de país. 

Como transformar sobra em poder 

Para quem decide investimentos, três movimentos fazem sentido agora: 

  1. Tratar energia como critério de localização, não só como custo. Operações intensivas em energia devem ser pensadas a partir de onde há geração abundante, contratos de longo prazo e baixa exposição a choques externos. 
  1. Usar a matriz como argumento comercial. Com o acordo Mercosul–União Europeia em aplicação provisória desde maio e compradores cada vez mais atentos à pegada de carbono, um produto feito com energia renovável comprovada vale mais na negociação. 
  1. Cobrar infraestrutura. Transmissão, armazenamento e regras estáveis vão decidir se o potencial vira investimento ou continua sendo desperdiçado. 

De 9 a 20 de novembro, Antalya, na Turquia, sedia a COP31. O Brasil chega lá com um argumento que poucos países têm: energia limpa que não depende de gargalo alheio. Falta convertê-lo em estratégia. Num mundo em que a energia voltou a ser arma, ter sobra dela é poder — desde que se saiba usá-lo.