A infraestrutura brasileira vive um novo momento que exige resstruturação e logística inteligente. E a rodocabotagem se destaca como um elemento estratégico, conectando rodovias e vias marítimas para superar gargalos históricos. Essa integração não apenas otimiza o transporte de cargas, mas também oferece uma alternativa mais segura, econômica e sustentável. 

Durante a 30ª edição da Intermodal South America, uma das discussões foi a necessidade de romper com a hegemonia do modal rodoviário, que predomina no Brasil há mais de oito décadas. No painel Do asfalto ao mar: o potencial bilionário da rodocabotagem no Brasil, a presidente da Aliança Navegação e Logística, Luiza Bublitz, mediou um rico bate papo entre o diretor da TCL SEMP, Roberto Dias e o gerente de suplly chain da Mondelez Brasil, Claudio Pena.  

De Manaus ao Porto: A Eficiência da Cabotagem 

Os especialistas afirmam que a migração para o modal marítimo deixou de ser uma opção e se tornou uma necessidade para a sobrevivência operacional das empresas. Eles destacam que a cabotagem se mostra extremamente eficiente, superando o transporte rodoviário em aspectos como segurança e custos, especialmente quando se consideram os gastos com seguros e gerenciamento de riscos (GR). Ainda assim, há um desafio que precisa ser superado: a previsibilidade.  

Para a TCL antecipar a demanda e o produto que deverá ser entre em cada Centro de Distribuição (CD) ainda é uma questão complexa para a empresa ligada a macroeconomia. Com uma atuação forte na importação e produção local com a fábrica em Manaus e o CD em Cajamar, Dias afirma que  ainda é muito complicado antecipar isso tratando-se de produtos eletroeletrônicos.  

“Agora em período pré-Copa e pré-seca em Manaus essa estratégia fica ainda mais delicada. E uma das soluções encontradas pela TCL é investir na multimodalidade: usar trens para subir cargas de Santos para Jundiaí, trazendo mais agilidade e segurança à operação antes da entrega final ao cliente”, explica. 

A Mondelez, estrategicamente localizada com 80% de seu consumo concentrado a até 80 km da costa brasileira, identificou na cabotagem uma oportunidade promissora para otimizar sua logística. No entanto, ao investir em estudos e projetos para essa transição, a empresa enfrentou barreiras internas significativas. 

Apesar do grande potencial do modal, a mudança cultural dentro da organização foi um processo difícil. Pena descreve essa jornada como um verdadeiro “jogo de xadrez”.

“Falar de cabotagem internamente foi um desafio de letramento. E ainda temos essa cultura muito forte no país. É necessário transformar um mindset consolidado há décadas, focado exclusivamente no transporte rodoviário”

Para a Mondelez, a migração de modal traz uma vantagem competitiva imbatível: 

  • Sustentabilidade: Redução de aproximadamente 72% nas emissões de CO2 em comparação ao rodoviário. 
  • Custo Zero de Transição: A economia gerada paga a mudança, permitindo investir em “rotas verdes” com caminhões elétricos na ponta da entrega. 
  • Inovação: O uso de IA e digitalização de processos para compensar imprevistos e ajustar a “direção das velas” em tempo real. 

Para Luiza Bublitz, o principal obstáculo ainda é a falta de um entendimento mais profundo sobre os benefícios o modal. “A cabotagem é altamente eficiente para longas distâncias, enquanto o transporte intermodal é ideal para percursos menores. Trata-se de uma logística voltada para oferecer um preço final mais competitivo ao consumidor”, destaca. 

E por falar em sustentabilidade, a Aliança tem se destacado na liderança da transição energética no setor. Desde 2018, a empresa vem testando combustíveis alternativos, incluindo o uso pioneiro de 100% de etanol em embarcações. Com metas ambiciosas de redução de emissões até 2050, o setor marítimo se consolida como um pilar estratégico para que o Brasil alcance seus compromissos globais de descarbonização. 

O Futuro é Multimodal 

O desafio de escolher o combustível ideal para o futuro é uma pauta prioritária no setor logístico, especialmente diante das metas agressivas de redução de CO₂. A cabotagem surge como um dos pilares estratégicos para alcançar esses objetivos, oferecendo vantagens significativas.  

O sucesso da rodocabotagem depende de resiliência e de uma estratégia que vá além da simples adoção da ferramenta, priorizando processos inteligentes e a educação do mercado. “É uma jornada de aprendizado constante que exige mudar a vela a todo momento para continuar navegando”, alerta Pena.  

Ele enfatiza a relevância global do tema e o compromisso da Mondelez no Brasil em reduzir suas emissões em 35% até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2050. “A cabotagem oferece uma vantagem extraordinária, permitindo uma redução de aproximadamente 72% nas nossas emissões em comparação ao modal rodoviário, além de apresentar um custo operacional zero”, destaca. Além disso, ele ressalta a importância de implementar grandes rotas verdes, integrando caminhões elétricos nas extremidades e o uso de combustíveis sustentáveis, reforçando o papel estratégico da logística na transição para um futuro mais sustentável.