Quando falamos em otimização de carga no transporte ferroviário, um assunto em destaque é o vagão double stack. Esse tipo de vagão tem se mostrado uma solução eficiente para reduzir custos e aumentar a capacidade de movimentação de cargas – como grãos, contêineres, produtos refrigerados e outros – ao longo da malha ferroviária brasileira.
Conversamos com o tutor dos cursos de Logística do Senac EAD, Roberto Gonçalves, que explica sobre o assunto. Confira!
Como o vagão double stack otimiza o transporte de cargas
De acordo com Gonçalves, a otimização proporcionada por esse tipo de vagão resulta em uma eficiência de transporte ferroviário espetacular, podendo dobrar ou até triplicar a quantidade de mercadorias transportadas por quilômetro rodado. OU seja, permite o carregamento de 3 ou 4 contêineres por plataforma, o que aumenta substancialmente a eficiência do transporte ferroviário do ponto de origem ao destino.
“O vagão double stack traz um ganho acima de 120% da capacidade em relação aos vagões tradicionais, pois agiliza a carga e a descarga nas movimentações dentro da intermodalidade, proporcionando também ganhos de tempo entre a origem e o destino”, ressalta o especialista.
Gonçalves ainda comenta outras vantagens do modelo: “Esse tipo de vagão otimiza o valor de frete, pois comporta uma capacidade de carga em dobro em uma mesma plataforma”.
Além disso, otimiza a segurança no transporte por seu padrão de travamento e fixação, não necessitando de lonas ou cordas e, por fim, proporciona uma grande redução de combustível operacional.
Veja dados recentes sobre transporte ferroviário no Brasil
O transporte ferroviário de cargas no Brasil atingiu recordes em 2024, com destaque para a participação de diferentes tipos de produtos na movimentação total. Acompanhe:
- Em 2024, as ferrovias brasileiras transportaram mais de 540 milhões de toneladas úteis (TU) de cargas (incluindo minério e demais produtos), o maior volume dos últimos anos, com crescimento de cerca de 1,83% em relação a 2023.
- A movimentação de carga geral (excluindo minério de ferro) alcançou cerca de 150 milhões de TU, quebrando recordes históricos.
- Minério de ferro continuou sendo o principal produto transportado, com cerca de 390 milhões de TU, respondendo por grande parte do total.
- Outros produtos também mostraram crescimento significativo: celulose (26,4%), açúcar (15,8%) e contêineres (8,73%).
Esses números reforçam a importância das ferrovias no escoamento de cargas de grande volume e longa distância, especialmente em setores como mineração e agronegócio.
Corredores e terminais-modelo no Brasil
Listamos alguns dos terminais-modelo e corredores mais conhecidos do Brasil quando o assunto é o transporte de cargas pelas ferrovias:
Ferrovias estratégicas
- Ferrovia Norte-Sul (FNS): eixo logístico fundamental para integração nacional, ligando o Centro-Oeste ao Norte e favorecendo o escoamento de grãos e minérios.
- FIOL (Ferrovia de Integração Oeste-Leste) – Bahia: importante para o transporte de minério e grãos, conectando o interior ao litoral. Avanços em obras e retomadas de trechos sinalizam relevância logística.
- Malha Sudeste (MRS): corredor essencial que liga Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo ao Porto de Santos/SP, o maior porto brasileiro com forte interligação ferroviária.
Terminais e hubs logísticos
- Terminal São Luís (MA): importante interface entre ferrovia e porto no corredor Norte.
- Terminal Multimodal de Rio Verde (GO): movimentação robusta de soja e fertilizantes, com capacidade elevada para cargas agrícolas e diversas commodities.
- Novos terminais rodoferroviários, como o de Alvorada (TO): estão sendo inaugurados e ampliam a capacidade de transbordo de grãos e cargas gerais.
Desafios observados no uso do vagão double stack
Apesar de ser uma alternativa eficiente, o uso do vagão double stack ainda enfrenta obstáculos no Brasil. “Nesse contexto de otimização, os vagões double stack têm barreiras a desbravar pelo Brasil, pois sendo um país continental e ainda carente de novas linhas férreas, está diante desse equipamento eficiente no seu propósito e se depara com o desafio das ferrovias”, analisa Gonçalves.
Ele complementa: “Afinal, ainda temos linhas férreas com problemas de bitolas dos trilhos e em relação ao método construtivo para suportar tal carga em movimento”.
O tutor ressalta a importância de investimentos e adaptação da infraestrutura. “Os desafios ainda se mostram sendo flexibilizados pelos novos investimentos oriundos das empresas operadoras em suas concessões, para adaptar as ferrovias ao uso mais constante de vagões double stack”, comenta.
Por dentro da legislação e regulação ferroviária
A regulação e a estrutura legal do setor ferroviário brasileiro têm sido atualizadas para favorecer investimentos e ampliar a malha:
Marco Legal das Ferrovias (Lei nº 14.273/2021)
O Marco Legal das Ferrovias transformou a forma de exploração e regulação do transporte ferroviário no Brasil, estabelecendo novas diretrizes para a organização do transporte, uso da infraestrutura e tipos de outorga.
Essa lei criou um novo regime de autorização para a exploração ferroviária, permitindo que empresas privadas construam e operem ferrovias com maior flexibilidade regulatória e menor dependência de recursos públicos.
Medida Provisória nº 1.065/2021
A MP 1.065/2021 foi um marco inicial para introduzir o novo regime de autorizações ferroviárias, um modelo semelhante ao adotado em outros setores (energia, telecomunicações). Embora sua vigência tenha terminado com a entrada em vigor da Lei nº 14.273/2021, ela foi essencial para estruturar o processo de autorização ferroviária no país.
Normas da ANTT
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) é responsável pela concessão, autorização, fiscalização e regulação das ferrovias federais e concedidas, incluindo regras para contratos e segurança operacional.
A agência tem implementado projetos como o CGTF (Condições Gerais de Transportes Ferroviários), que padroniza obrigações contratuais, fortalece direitos dos usuários e reforça a segurança e eficiência do modal.
O vagão double stack representa uma grande oportunidade para aumentar a eficiência do transporte ferroviário de cargas no Brasil, especialmente quando aliado a uma malha ferroviária moderna e estrategicamente equipada.