A logística brasileira atravessa um processo de reorganização impulsionado por gargalos históricos nos portos marítimos, custos elevados e exigências crescentes de previsibilidade. Assim, os portos secos passam a ocupar um papel estratégico na cadeia logística nacional, funcionando como hubs de integração logística e multimodalidade.

Ao permitir o desembaraço aduaneiro no interior do país, esses terminais conectam rodovias, ferrovias e portos marítimos, promovendo a descentralização dos fluxos de carga e uma redistribuição mais equilibrada das operações. 

Para aprofundar esse movimento, o Modal Connection entrevistou Célio da Silva Dias, advogado associado do escritório Pedro Calmon Filho & Associados, com atuação nas áreas de Direito Administrativo, Ambiental, Portuário, Tributário e Aduaneiro, além de integrante da Câmara de Comércio Brasil–Chile.

Segundo o especialista, o reposicionamento dos portos secos está diretamente ligado à integração física e operacional com diferentes modais de transporte. Acompanhe mais do que ele nos disse ao longo deste artigo!

Multimodalidade como vetor de eficiência operacional

Conforme Dias, a multimodalidade como vetor de eficiência operacional tem orientado projetos estruturantes de infraestrutura no país e ajuda a explicar o reposicionamento dos portos secos na cadeia logística. 

Ele cita que a Transnordestina, por exemplo, foi concebida já a partir da lógica de integração com portos secos conectados a terminais marítimos como o Porto de Suape e o Porto do Pecém. 

Nesse arranjo, os terminais atuam como pontos intermediários de concentração e redistribuição de cargas, encurtando trajetos, reduzindo etapas operacionais e ampliando a eficiência dos fluxos logísticos.

O advogado ressalta que esse avanço não se limita à infraestrutura física. Segundo ele, há um movimento institucional relevante no Congresso Nacional voltado à discussão de um novo marco regulatório para portos secos e centros logísticos e industriais aduaneiros. 

Na avaliação de Dias, “o modelo vigente precisa ser modernizado, com regras mais claras e menor carga burocrática, para atrair investimentos, viabilizar a entrada de novos operadores e fortalecer a geração de empregos no setor logístico”.

Redução de custos e ganhos para importadores e exportadores

Na prática, os benefícios econômicos são um dos principais atrativos dos hubs estratégicos de logística. Para Dias, o uso de portos secos tende a reduzir custos de armazenagem e transporte, especialmente quando comparado aos portos marítimos, em que a pressão por espaço e serviços encarece as operações.

Há também ganhos relevantes na eficiência operacional do despacho aduaneiro. Afinal, com menor concentração de cargas e fiscalizações, o processo costuma ser mais ágil. “Isso reduz custos indiretos, como demurrage e detention, e traz mais previsibilidade para as cadeias de suprimento”, observa o advogado.

Esses fatores se traduzem em vantagem competitiva para importadores e exportadores, que passam a operar com maior flexibilidade logística e melhor controle do custo total das operações.

Descentralização aduaneira e alívio dos gargalos portuários

A descentralização do desembaraço aduaneiro é apontada como um dos impactos estruturais mais relevantes dos portos secos. Isso porque, ao transferir etapas como conferência física, fiscalização documental e armazenagem prolongada para o interior, os portos marítimos conseguem se concentrar na movimentação de cargas.

“Na prática, a carga desembarca no porto marítimo e segue rapidamente para o porto seco, onde o despacho ocorre em um ambiente menos saturado e mais previsível”, explica Dias. Tal modelo reduz filas, diminui o tempo de permanência de contêineres e contribui para a fluidez operacional de toda a cadeia logística.

Digitalização e rastreabilidade de cargas

A digitalização dos processos tem ampliado o papel estratégico dos portos secos. Além disso, a integração desses terminais ao Portal Único de Comércio Exterior e aos sistemas da Receita Federal permite o acompanhamento quase em tempo real de cada etapa da operação, do trânsito aduaneiro ao desembaraço final.

Segundo Dias tecnologias como RFID, lacres eletrônicos e monitoramento via GPS aumentam a rastreabilidade de cargas, elevam a segurança e reduzem riscos de extravio. Nas palavras do advogado: “esses sistemas reduzem retrabalhos e ampliam a previsibilidade dos prazos logísticos, fator cada vez mais valorizado no comércio exterior”. 

Case de integração: Porto Seco de Foz do Iguaçu

Entre os exemplos mais consolidados de integração logística está o Porto Seco de Foz do Iguaçu, localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. O terminal atua como um hub de conexão entre o transporte rodoviário internacional e os serviços aduaneiros, integrando operadores logísticos, transportadoras e órgãos de fiscalização.

“Esse modelo permite maior fluidez nas operações, com alto nível de coordenação entre os agentes envolvidos”, destaca Dias. Ele conta que, em 2024, o terminal registrou recorde de movimentação, com mais de 5,6 bilhões de toneladas processadas e volume financeiro superior a US$ 8,6 bilhões, evidenciando o potencial desse arranjo logístico.

Parcerias público-privadas e sustentabilidade

No que se refere às parcerias público-privadas, Dias afirma que elas têm exercido papel relevante no fortalecimento dos portos secos como ativos estratégicos da logística nacional. 

Conforme o especialista, “enquanto o poder público atua na regulação, no alfandegamento e na coordenação institucional, a iniciativa privada aporta capital, eficiência operacional e inovação tecnológica”. 

Além disso, o modelo também contribui para as metas de sustentabilidade. Ao permitir a consolidação de cargas no interior e estimular a integração com ferrovias, os portos secos reduzem deslocamentos rodoviários longos e repetitivos. “Isso impacta diretamente o consumo de combustível e as emissões de CO₂”, explica o advogado, ressaltando o papel do modal ferroviário na redução de gases de efeito estufa.

Competitividade internacional e redução do custo Brasil

No cenário internacional, as redes consolidadas de portos secos são vistas como instrumentos para ampliar a eficiência logística e reduzir custos. Experiências em corredores logísticos da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia mostram que esses recintos aumentam a confiabilidade das operações e ampliam a capacidade dos portos marítimos de receber novos fluxos de carga.

Para Dias, o fortalecimento dos portos secos permite integrar regiões do interior às rotas globais de comércio e tornar o Brasil mais atrativo para cadeias produtivas internacionais. “É possível ampliar a competitividade das exportações, melhorar a posição do país nos rankings logísticos e criar condições para captar novos fluxos de carga”, conclui o advogado.