No transporte de alimentos e produtos agrícolas, o contêiner deixa de ser apenas um equipamento logístico e passa a ser um verdadeiro guardião de qualidade. Em um fluxo global onde temperatura, umidade, ventilação e higiene determinam o valor final da carga, alguns tipos de contêineres se destacam como pilares dessa operação.
Entender como cada um funciona é o primeiro passo para reduzir perdas, garantir a conformidade sanitária e preservar o valor da mercadoria do campo ao destino final. Para falar sobre o assunto, conversamos com Kayan Calegari de Camargo, especialista em comércio exterior e vendas da Saygo.
Os principais tipos de contêineres utilizados no transporte de alimentos e produtos agrícolas
Para Kayan de Camargo, quando falamos de alimentos e produtos agrícolas, o transporte deixa de ser apenas um deslocamento e passa a ser um ato de preservação de valor. “É por isso que, na prática do comércio global, quatro tipos de contêineres acabam sendo a espinha dorsal desse fluxo”.
São eles:
- Dry containers: Utilizados para transportar grande parte dos alimentos secos e industrializados.
- Contêineres refrigerados: Preservam a integridade de produtos perecíveis que não toleram variações térmicas.
- Contêineres ventilados: Essenciais para cargas que necessitam de ventilação, como café e cacau.
- Tanks: Garantem higiene e estabilidade no transporte de líquidos alimentícios.
Funcionamento dos contêineres e suas aplicações
O especialista destaca que os contêineres refrigerados funcionam como verdadeiras câmaras frias móveis, operando com controle térmico que varia de -30ºC a +30ºC e garantindo mínima oscilação ao longo do trajeto. Essa tecnologia é indispensável para o transporte de carnes, frutas frescas, lácteos e pescados, produtos altamente sensíveis à temperatura.
Já os contêineres dry são descritos como o “cavalo de batalha” do comércio exterior. Robustos e versáteis, eles não possuem controle de temperatura, o que os torna ideais para alimentos secos, ensacados ou enlatados, atendendo a uma ampla gama de demandas logísticas.
Camargo também ressalta a importância dos contêineres ventilados, utilizados em cargas que liberam umidade ou gases, como o café verde. Esse produto, que representa uma parcela significativa das exportações brasileiras, exige fluxo de ar contínuo para evitar problemas como mofo e condensação, garantindo sua qualidade durante o transporte.
Já os tanks são o padrão ouro para líquidos alimentícios.“Óleos vegetais, sucos concentrados, vinhos e melaço atravessam oceanos dentro de estruturas pressurizadas de aço inox com revestimento food grade, garantindo pureza e estabilidade”, afirma.
Quem trabalha com esse modal sabe: poucas áreas demandam tanto rigor sanitário e controle de qualidade quanto o segmento de transporte de alimentos, onde cada detalhe é fundamental para garantir a segurança e a integridade das cargas.
Influência das exigências sanitárias e tecnologias de conservação no transporte
Camargo alerta que o transporte internacional de alimentos opera sob uma legislação rigorosa, onde falhas não são toleradas. Cada país estabelece suas próprias exigências sanitárias, e a operação deve estar alinhada a normas como FDA, HACCP e regulamentos fitossanitários específicos. Nesse contexto, a tecnologia deixa de ser um luxo e se torna uma obrigação indispensável.
Ele explica que os contêineres refrigerados modernos, conhecidos como reefers, vão além da simples refrigeração. Equipados com sistemas de monitoramento em tempo real, eles mantêm variações de temperatura inferiores a 0,25ºC, reduzindo significativamente as perdas por deterioração.
Além disso, tecnologias como atmosfera controlada têm revolucionado o transporte de frutas em viagens longas, ampliando sua vida útil e permitindo que mercados distantes recebam produtos com qualidade praticamente idêntica à da colheita.
A rastreabilidade também se tornou uma exigência fundamental no setor. Para frutas, carnes e grãos, é imprescindível que o histórico da carga esteja documentado desde o campo até o porto. Essa prática reduz riscos, acelera liberações sanitárias e oferece maior previsibilidade tanto para vendedores quanto para compradores.
A importância da escolha correta do contêiner
Escolher o contêiner certo significa proteger margem, reputação e a experiência final do cliente.“No mercado de alimentos, qualquer descuido se transforma em perda financeira. A FAO estima que entre 10% e 20% dos perecíveis podem perder valor se houver desvio térmico durante o transporte”, comenta.
No caso de commodities sensíveis, como o café, Camargo ressalta que a umidade excessiva pode comprometer o grau da mercadoria e impactar diretamente a precificação internacional.“A escolha adequada também evita contaminação cruzada, inspeções extras, retenções em fronteira, demurrage e até devolução da carga”, explica.
E conclui: “O contêiner não é um acessório logístico, mas parte do próprio produto. Ele é o ambiente que protege a qualidade construída ao longo da cadeia de produção e garante que a mercadoria chegue ao destino com integridade e valor preservados”.